Revista Brotéria

  
FEVEREIRO 2014 - Jovens e religião nos últimos vinte anos PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
José Pereira Coutinho *   

Artigo 02-13 - Jovens e Religião JPC - Imagem

Este artigo, baseado em dados do European Values Study (EVS), apresenta a evolução da religiosidade dos jovens (15-24 anos) portugueses entre 1990 e 2008. O autor explora indicadores de crenças e de práticas católicas, atitudes em relação à vida e à sexualidade, e crenças não católicas. Posteriormente, o autor discute os resultados obtidos à luz das transformações na família e no lazer.

 

Individualização
Com o desenvolvimento das sociedades pós-industriais ou terciarizadas, a indi­vidualização ou segunda secularização torna-se o paradigma sociológico por excelência para enquadrar as transfor­mações religiosas. As formas não instItucionalizadas de religião vão ocupando o espaço das religiões tradicionais. Esta revolução espiritual transfere a ênfase no transcendente para o indivíduo: a religião institucional decresce em benefício da espiritualidade subjectiva. Já Marcel Mauss argumentava pela crescente espiritualização e individualização das religiões. As religiões perdem tanto a sua tangi­bilidade como o seu cunho comunitário. O indivíduo torna-se agora o soberano do seu destino, afectando inevitavelmente a sua religiosidade. A religiosidade juvenil actual caracteriza-se então pela primazia da felicidade individual e terrena, pela vontade de independência e de autonomia, pelo relativismo e pelo pragmatismo. Primeiro: os jovens actuais não acredi­tam em salvações colectivas, mas somente na felicidade indi­vidual. Querem ser felizes aqui e agora, não numa vida após a morte, abandonando ou reinterpretando a soteriologia cristã. Segundo: querem julgar e escolher livremente entre os produtos religiosos mais adequados para si, desenvolvendo bricolage. Terceiro: deixaram de acreditar no cristianismo como única verdade religiosa, uma vez que a religião se tornou escolha privada e a importância das religiões se tornou idên­tica. Quarto: a verdade não vem da doutrina e da teoria, mas meramente da experiência pessoal, do que a religião fornece às vidas concretas.

Família e lazer
A família é o factor essencial da socialização religiosa. Como instituição principal de educação religiosa, no seu seio a herança religiosa transmite-se de geração em geração como cadeia de memória. Porém, esta transmissão religiosa encon­tra-se ameaçada. Primeiro: a tradição já não continua a susten­tar a vida individual e colectiva. Segundo: as crenças são legiti­madas não pela autoridade tradicional mas pela sua utilidade. Terceiro: as crenças não são recebidas passivamente mas são activamente consumidas. Assim, as famílias são desafiadas hoje a conseguir ligar as experiências individuais aos conteú­dos religiosos associados a determinada linhagem crente. Para além destas alterações conjunturais, a mudança substancial da estrutura familiar contribui seguramente para quebrar os elos da cadeia. De facto, as pessoas casam-se menos, mais tarde e mais civilmente; as rupturas conjugais crescem; as crianças nascem progressivamente em menor quantidade e no seio de coabitações1. Ou seja, a reprodução das linhagens crentes tradicionais, assentes em casamentos religiosos estáveis e em famílias alargadas, fica certamente comprometida com estas transformações em curso.

Às mudanças na família juntam-se as modificações no lazer. De facto, no lazer os jovens expressam-se na sua espe­cificidade e diversidade, construindo a sua identidade sobre a experimentação afectiva, social e cultural. Durante as duas últimas décadas, estas experiências foram-se alterando paulatinamente: as afectivas assentando na expressão sexual, as sociais desligando-se da interacção presencial e as culturais convertendo-se especialmente em formas de consumo.

A mudança nas experiências afectivas implicou uma mutação ontológica importante. A passagem da concepção cristã de pessoa como ser unitário de corpo e alma à concepção dualista de objecto como exterior à pessoa. Esta tran­sição levou os jovens, mais permeáveis à novidade, a desau­torizar quaisquer intromissões relativas ao seu corpo, agora seu objecto pessoal. Certamente esta mudança foi acelerada e desenvolvida com o regime democrático, pela liberdade eigualdade inerentes. Primeiro: a TV, o cinema, a música, a Internet, a publicidade difundem uma cultura erotizada. Segundo: a inserção das mulheres no mercado de trabalho liberta os filhos da tutela materna, oferecendo-lhes oportuni­dades experienciais. Terceiro: a disseminação da contracepção diminui o risco de gravidezes indesejadas.

As tecnologias de informação e comunicação (TIC) revo­lucionaram a forma como as pessoas se relacionam. Enquanto no princípio dos anos 1990 o computador, a Internet e o tele­móvel surgiam em Portugal, passados vinte anos todos os jovens os usufruem. Embora as TIC sirvam para aproximar e para reforçar laços, possibilitam também o afastamento, oisolamento das pessoas, a existência de vidas centradas na virtualidade e não na realidade, assim como a fragmentação das histórias pessoais. Como defende Zygmunt Bauman, as relações pós-modernas são fragmentárias, inconsequentes, pequenas e sem obrigações mútuas, cortando o envolvimento interpessoal.
As experiências culturais são crescentemente pautadas pelo consumo. Por um lado, a procura expandiu-se com o alargamento do poder de compra da classe média. Por outro lado, a oferta dilatou-se não só pelo estímulo da vontade de consumo e pela extensão dos pontos de retalho, como também pela oferta de mais produtos e serviços a preços atractivos. O consumo fornece aos jovens identidade, autonomia e relação, muito expressivas nas saídas nocturnas. Com a quantidade e a diversidade de oferta aumentada nas duas últimas décadas, os jovens frequentam espaços profunda­mente marcados pelo consumo (de música e de álcool, pelo menos), que lhes confirmam ou fornecem identidade e onde podem livremente expressar-se e relacionar-se. Como defende Gilles Lipovetsky, os princípios do hiper-consumo invadem a alma religiosa: transitoriedade, liberdade de pertença comuni­tária e de escolha de comportamentos, primazia do bem-estar subjectivo e da experiência emocional.

Resultados e discussão
A figura 1 apresenta os resultados das crenças católicas. Em 1990, as crenças mais importantes foram ‘pecado’ (47%) e ‘Deus pessoal’, seguidos de ‘céu’, ‘vida após a morte’ e ‘inferno’ (14%), com uma amplitude de 33%. Todas as crenças cres­ceram (pelo menos +9%), principalmente ‘vida após a morte’ (+24%) e ‘inferno’ (+22%). Assim, em 2008, ‘vida após a morte’ e ‘céu’ trocaram as suas posições e a amplitude desceu para 24% (pecado – 60%, inferno – 36%). A figura 2 mostra os resultados das práticas católicas e das atitudes2. Cerca de 50% mantiveram os seus momentos de oração/meditação de uma ronda para outra, enquanto a frequência de serviços religiosos baixou 10% para 16%. Em 1990, homossexualidade era o aspecto mais rejeitado, seguida por eutanásia e aborto. Em 2008, tiveram valores próximos: homossexualidade desceu significa­tivamente (32%), enquanto eutanásia diminuiu 16% e aborto aumentou 2%. Relativamente às crenças não católicas, reincar­nação passou de 17% para 35% e espírito ou força vital de 20% para 25%.Porque é que a crença no pecado e no Deus pessoal é maior e no inferno é menor? Porque é que todas as crençasaumentaram, principalmente no inferno e na vida após a morte? Para ambas as questões, o desenvolvimento da indi­vidualização induz a reinterpretação heterodoxa das crenças ortodoxas ao sabor das necessidades individuais. Contudo, destacam-se crenças mais facilmente reformuladas em forma heterodoxa, como são eventualmente o pecado e o Deus pessoal. O crescimento maior da crença no inferno e na vida após a morte pode resultar dos seus valores significativamente mais baixos em 1990, tendo assim mais espaço para subir.

 

Artigo 02-14 - Jovens e Religião JPC - Imagem1

Figura 1: Evolução das crenças católicas (%)

Artigo 02-14 - Jovens e Religião JPC - Imagem2FigurA 2: Evolução das práticas católicas e das atitudes (%)

A frequência de serviços religiosos baixou possivelmente por três razões. Primeiro: a erosão da salvação cristã levou ao descrédito dos ritos salvíficos. Os jovens de hoje estão mais preocupados em salvar os pobres, a natureza ou os seus corpos e mentes. Segundo: a incoerência de sacerdotes e reli­giosos, mais divulgada pelas TIC, desencorajou a assistência à missa. Terceiro: o consumo, as saídas nocturnas, o sexo e as TIC retiraram tempo cronológico e, principalmente, tempo psicológico, para outras actividades, a não ser que sejam divertidas e permitam liberdade de expressão. Não serão asexperiências de concertos ou de noite, com rituais particulares, guiadas por deuses temporais (ídolos musicais) e sacerdotes nocturnos (DJ), similares às experiências xamânicas? Na ver­dade, os xamãs ouvem música, dançam e consomem substâncias psico-activas para estimular estados alterados de cons­ciência (transes) para interagir com o mundo espiritual. De facto, estas liturgias nocturnas de recorte xamânico adequam-se mais ao espírito juvenil.

A resistência da oração pode ser enquadrada no desen­volvimento da individualização. As formas e conteúdos colectivos de oração convertem-se em orações individuais, conversas pessoais livres com o divino, podendo no limite tornar-se quase a única expressão de religiosidade. Alguns autores chegam a defender a oração como forma moderna de confissão. Para eles, a oração reflecte a responsabilidade e o desenvolvimento individual para controlar o futuro e ultrapassar fraquezas, sem intermediários ou autoridade, sem pecado ou punição. A sua flexibilidade e acessibilidade (qual­quer pessoa pode aplicá-la em qualquer lugar e tempo) vão ao encontro da individualização.
Porque é que a recusa da eutanásia e principalmente da homossexualidade baixou, enquanto do aborto manteve o seu valor? Primeiro: qualquer tipo de autoridade, nomeadamente autoridade eclesiástica, é mal recebido pela juventude. Eles gostam de opinar sem se prenderem a laços externos, porque se consideram fonte principal das suas regras. Quando se lançam fora da Igreja, provavelmente seguem mais as suas pró­prias regras. Segundo: TV e cinema ajudaram possivelmente a propagar um ambiente receptivo à eutanásia e homossexualidade. Figuras públicas, estrelas de TV ou de música assu­mindo a sua condição homossexual, assim como a educação sexual nas escolas, provavelmente encorajaram a aceitação da homossexualidade. Terceiro: possivelmente o aborto poderia não descer mais, enquanto os outros indicadores baixaram até ao valor deste. Talvez as três atitudes tenham alcançado o mínimo valor possível, relativo aos católicos convictos.

Porque é que a crença no espírito ou força vital e na reincarnação aumentaram e principalmente esta última? Com a disseminação das TIC, o mercado espiritual expandiu-se, permitindo a escolha livre e ampla dos produtos religiosos. Jogos, filmes, séries de TV e telenovelas estão provavelmente a estimular esta mudança. Também doutrinas da Nova Era e do budismo espalham crenças no sagrado imanente e não transcendente, assim como nos ciclos cármicos. Assim, talvez ambos os indicadores interessem a juventude, competindo com a ressurreição e o Deus pessoal. A força maior da reincar­nação resulta porventura da ideia de permanência infinita da alma neste mundo, numa eterna viagem cíclica, o que vai ao encontro da concepção actual da eterna juventude em que a morte foi morta.

Por último, a família apresenta-se como factor chave na interpretação destas alterações. Fonte capital de religião, igreja doméstica, a família tem papel determinante. As famílias tradi­cionais vão diminuindo, dando lugar a tipos conjugais diversos, gradualmente mais pequenos, assentes no casamento civil ou na coabitação e marcados por rupturas. Os estudos apontam para que a probabilidade de os filhos de casais mais religiosos,portanto inseridos em famílias tradicionais, serem mais reli­giosos seja maior. Conjecturo ainda que a quebra do número de crianças com o crescimento da riqueza e o decréscimo da autoridade parental diminuiu a religiosidade juvenil. Os miúdos, mais protegidos mas mais livres nas suas vidas, têm menos capacidade para o sacrifício, para a responsabilidade, para o compromisso, pelo que não só são mais impacientes para desempenhar práticas religiosas repetitivas, mas também seguem as suas próprias regras e acreditam no que lhes apraz.

Conclusões
Entre 1990 e 2008, os jovens portugueses passaram a acreditar mais, tanto em crenças ortodoxas como heterodoxas, a praticare a seguir menos as normas católicas. Estas conclusões limi­tam-se, contudo, ao período em análise, período máximo disponível. Esta ressalva é abreviada pela qualidade do EVS, certamente a base de dados internacional com indicadoresmais interessantes sobre religião. Desta forma, espera-se que os dados reflictam com fiabilidade a realidade estudada. De facto, como defende Grace Davie, respeitada socióloga da religião, as práticas decrescerão, enquanto as crenças manterão a sua presença, embora crescentemente pessoais, hete­rogéneas e demarcadas da instituição religiosa, principalmente entre os jovens. Estas alterações religiosas advêm também das mutações na família e no lazer, como tentei desenvolver neste artigo. Mudanças na estrutura e no papel da família como transmissora religiosa explicam possivelmente a evolução reli­giosa em todos os seus três tipos de indicadores. Mudanças no lazer (sexualidade, TIC e consumo) explicam porventura a descida da assistência à missa e do seguimento das normas católicas, e o crescimento das recomposições religiosas, prin­cipalmente através das TIC. Em suma, a individualização é traço principal da nossa modernidade, como é reconhecido por vários autores.

 

in Brotéria, Volume 178, n.º 2 - Fevereiro 2014, pp. 157-164.


*Doutor em sociologia (ISCTE-IUL).


  

1 Taxa bruta de nupcialidade: 7,2‰/4,1‰. Idade média ao primeiro casamento para mulheres/homens: 24,2-26,2 / 28,1-29,7. Casa­mentos não católicos: 27,5%/55,5%. Taxa bruta de divorcialidade: 0,9‰/2,5‰. Taxa bruta de natalidade: 11,7‰/9,9‰. Tamanho da família: 1991 - 3,1; 2011 - 2,6. Nados vivos fora do casa­mento com coabitação dos pais: 1995 - 14,3% / 2008 - 29,2%. Fonte: PORDATA – valores de 1990 e 2008 (ou de anos próximos, sempre indicados).
2 Frequência de serviços religiosos reporta-se à soma das categorias ‘mais de uma vez por semana’ e ‘uma vez por semana’. Momentos de oração/meditação referem-se à categoria ‘sim’. As ati­tudes reportam-se à catego­ria ‘nunca’.


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