Revista Brotéria

  
MARÇO 2014 - Os custos do progresso tecnológico PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Francisco Sarsfield Cabral *   

Artigo 03-14 - Os Custos do progresso tecnológico FSC - Imagem

Os avanços da tecnologia informática e robótica irão trazer benefícios. Mas receia-se que destruam muitos empregos e aumentem as desigualdades de rendimentos. Poderá não se repetir o que aconteceu com a revolução industrial, que acabou por criar muitos mais empregos do que aqueles que as máquinas eliminaram.

 


Uma notícia no Financial Times de 16 de Fevereiro deste ano dava conta de que tinham aumentado a produção e os lucros na indústria automóvel do Reino Unido. Com menos operários graças à crescente automatização, esse sector produz agora 45% mais veículos do que há quatro anos. Durante este período os salários dos 30% de trabalhadores mais mal pagos da indústria automóvel do Reino Unido desceram 7,5%, enquanto os vencimentos dos gestores de topo das seis maiores fábricas de carros subiram, em média, 19%.

No mesmo jornal e no mesmo dia, um artigo de Lawrence Summers (ex-Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, ex‑Presidente da Universidade de Harvard e ex-Chefe dos Conselheiros Económicos do Presidente Obama) alertava para que “a América arrisca-se a tornar-se uma economia do tipo Downton Abbey” (isto é, uma economia dual, de ricos e pobres, “up stairs, down stairs”). É que “a desigualdade emer­giu como um problema maior nos EUA e noutros países”.

Inversão da tendência democratizadora

De facto, na sociedade americana e, mais lentamente, noutras sociedades, as desigualdades acentuaram-se dramaticamente, invertendo a tendência “democratizadora” do capitalismo industrial. Ao longo do século XX, até por volta de 1970, a grande maioria dos proletários americanos passou para a classe média. Infelizmente a pobreza não foi debelada na sociedade dos EUA, mas os pobres tornaram-se uma minoria, em regra situada fora do sistema. Por isso, essa minoria marginal encon­tra-se hoje mais desprotegida do que os pobres do passado recente, pois conta pouco em termos de votos nas eleições.

Durante décadas, a parte dos rendimentos do traba­lho (salários) e a dos rendimentos de capital (juros, dividendos, etc.) mantiveram-se estáveis no PIB dos EUA. Mas, de 70% do PIB em 1980, a parte do trabalho desceu para 64% agora. A tendência é global: acontece até em países que prezam o combate às desigualdades: na Suécia a queda foi de 74% em 1980 para 65%; e na Noruega de 64% para 55%.

Os lucros empresariais representaram no PIB dos EUA menos de 10% durante longo tempo, tendo baixado para os 4% antes da crise desencadeada em 2007 com o crédito hipo-tecário de alto risco (subprime). Mas em 2012 a parte dos lucros já valia 12% do PIB americano. A parcela do rendimento nacional dos EUA que vai para apenas 1% da sua população (a mais rica) era de 9% em 1970; hoje está em 22%.

 

Uma bomba relógio social e política

Muito mais móvel do que o trabalho, em particular quando se trata de procurar locais onde a carga fiscal seja menor, numa era de mercado financeiro global por via informática, o capital está a ganhar ao trabalho também em países como a China, o Japão, a Coreia do Sul, o México, etc.

Mas atenção: as desigualdades de rendimento têm dimi­nuído entre países ricos e países pobres. Centenas de milhões de chineses saíram da miséria graças à globalização e a um maior funcionamento do mercado. Noutros países asiáticos,como a Índia, e sul-americanos (Brasil, por exemplo) a pobreza também recuou. Por isso o slogan “pobres cada vez mais pobres, ricos cada vez mais ricos” não corresponde intei­ramente à realidade.

Mas dentro da China o leque da riqueza alargou-se mui­tíssimo entre os ainda pobres e os cada vez mais numerosos milionários. Entre estes estão alguns dos que obtiveram em Portugal os chamados vistos gold, uma autorização de resi­dência que implica fazer investimentos no nosso país, nomea­damente comprando casas de valor a partir de 500 mil euros.

Nos EUA, da reabertura do leque de rendimentos resulta que a classe média americana praticamente não melhora de situação económica desde há quarenta anos. Na Grã-Bretanha e na Alemanha essa estagnação regista-se há uma década. Entretanto, têm subido em flecha os rendimentos de uma minoria: gestores de bancos e de outras empresas, investi-dores financeiros, vedetas da televisão, profissionais liberais mais conhecidos e, em geral, os que lidam bem com a infor­mática e os seus progressos.
Até quando poderá manter-se social e politicamente este fosso crescente entre uma maioria de pessoas cujo rendimento é estacionário e uma minoria que enriquece fabulosamente? Como já aqui referi (Brotéria, Fevereiro de 2012), há muitos milionários americanos que têm consciência de que este dese­quilíbrio crescente é uma bomba relógio social e política.

Warren Buffett, grande investidor, declarou que queria pagar a mesma taxa de imposto do que a sua secretária (como vive de transacções financeiras, Buffett paga uma taxa libera­tória de 15% sobre cada operação, enquanto a secretária paga um imposto sobre o seu rendimento à volta de 30%). Mais de 130 milionários escreveram uma carta aberta ao Presidente dos EUA reclamando pagar mais impostos.

Nem W. Buffett nem os outros milionários foram ouvidos pelo poder político. Uma fracção importante do Partido Repu­blicano rejeita qualquer subida de impostos, mesmo sobre milionários. Ou seja, uma parte – infelizmente pequena – das crescentes disparidades de riqueza na América tem a ver com determinadas leis e políticas. Ora estas podem e devem ser alteradas. Mais difícil será mudar outros factores que estão na base das desigualdades.

 

Factores de desigualdade

Por exemplo, a globalização traz a concorrência de salários muito baixos de países asiáticos, como a China (onde, aliás, os salários já estão a subir) e outros. Mas esta concorrência afecta apenas uma franja de trabalhadores dos países desenvolvidos, aqueles que competem em bens e serviços que não são de alta tecnologia.

Outro factor da perda de peso do trabalho na distribuição dos proveitos do progresso económico é a crise do sindica­lismo. Um pouco por toda a parte, o sindicalismo perdeu tra­balhadores inscritos e força. O que, em boa medida, reflecte a evolução nos modelos de produção. Das grandes fábricas, organizadas à maneira militar, incluindo no tipo de hierarquia, passou-se para modelos mais descentralizados e com unidades autónomas, onde o recrutamento de militantes sindicalistas é difícil.

Por outro lado, em sociedades cada vez mais mediáticas, como as nossas, ser conhecido do grande público pode signi-ficar um substancial acréscimo de rendimento em relação a quem não é conhecido. É o que se passa, nomeadamente, no interior de profissões liberais: um advogado ou um médico conhecidos do grande público ganham muito mais do que os seus colegas desconhecidos.

Mas o principal factor do aumento das desigualdades (vale 80% desse aumento, segundo a OCDE) é o progresso vertiginoso da tecnologia informática. Progresso não só nos processos tecnológicos, como na entrada da informática em quase todos os domínios da vida pessoal e empresarial. Ora, poderá o progresso tecnológico em curso ter consequências negativas?

 

Danos colaterais

O avanço da informática traz consigo enormes vantagens, mas também dois tipos de “danos colaterais”: acentua as desigual­dades entre os que se movimentam com facilidade nesse meio e os “info-excluídos”; e reduz muito os empregos de “colarinho branco”, ou seja, de escritório, atingindo a classe média.

Serão exagerados estes receios? Não se temeu algo seme­lhante quando a revolução industrial começou a substituir tra­balhadores por máquinas, mas ao fim de algum tempo criou muitos mais empregos do que aqueles que de início destruiu?

O debate está em curso, para já, pelo menos, em meios académicos. Dois livros, The Race Against the Machine e The Second Machine Age, assinados em conjunto por dois investigadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee, afirmam que o poder dos computadores irá crescer de forma exponencial; em breve as “máquinas inteligentes” estarão por toda a parte, dizem eles. Na revolução industrial as máquinas substituíam o esforço físico de homens e animais; agora, a automatização substitui e alarga a inteligência humana.

Um outro estudo, este de dois investigadores da Univer­sidade de Oxford, Carl Benedikt Frey e Michael A. Osborne, The future of employment: how susceptible are jobs to compu­terisation?, prevê que nos próximos vinte anos os progressos informáticos e a crescente utilização de robots elimine 47% dos actuais empregos nos EUA. Quase metade!1

Aliás, a indústria americana emprega hoje só 10% da população activa – em 1950 empregava 30%. Contra o que muita gente pensa, reindustrializar não traria um significativo aumento de novos postos de trabalho, pois os robots cada vez mais substituem os operários em inúmeras tarefas.

Alguns empregos estarão seguros: artistas, terapeutas, cozinheiros, cientistas, professores de yoga, conselheiros psicoló­gicos, por exemplo. Outros nem por isso: taxistas (já circulam experimentalmente na Califórnia carros sem condutor, coisa considerada impossível ainda há poucos anos), contabilistas, operadores de telemarketing e, de um modo geral, todos os que hoje exercem tarefas que possam vir a ser realizadas mais eficazmente, e a menor custo, por computadores ou robots. Até exames médicos.

Como escreveu recentemente o semanário The Economist, um conhecido e vigoroso defensor da economia de mercado e do progresso tecnológico, “o crescimento e a inovação pro­porcionam excelentes ganhos aos tecnicamente preparados, enquanto ao resto estão reservadas cada vez menos oportuni­dades de emprego e estagnação de salários”.

Sempre houve “sacrificados do progresso”. A revolução industrial teve milhões – vejam-se os romances de Charles Dickens. A diferença, agora, é que os sacrificados do progresso podem ser a grande maioria da população. Uma perspectiva inaceitável, a pedir estudo urgente e sério deste problema. Até porque a crise demográfica, com o envelhecimento crescente das populações, não facilita o aumento de apoios sociais aos que são deixados para trás pelo avanço tecnológico.

 

in Brotéria, Volume 178, n.º 3 - Março 2014, pp. 257-262.

 


* Jornalista.


 


1 Não li este estudo, nem os livros dos investigado­res do MIT, conhecendo-os apenas por citações e refe­rências.

 
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