Revista Brotéria

  
ABRIL 2014 - Se há ciência, para quê Deus? PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
A. L. Leite Videira *   

Artigo 04-14 - Se há ciência para quê Deus ALLV - Imagem

Não que a Divindade seja incapaz de alterar as suas próprias leis, mas porque, ao admitirmos a hipótese
de que Deus precisa de modificar o que fez, O insultamos. Na sua base, todas essas leis se criaram de modo
a abarcarem não só as contingências do Presente, como as que o Futuro trouxer. Com Deus, tudo é agora.

Edgar Allan Poe

 

Com a publicação da Origem das Espécies de Charles Darwin em 1859, a questão da relação entre Ciência e Fé – que, até então, fora sempre tacitamente encarada de modo que a pri­meira desempenhasse o papel de mero suporte às imanentes verdades da segunda – sofreu uma brusca e inquietante altera­ção: a sólida racionalidade da teoria da evolução das espécies vivas parecia, agora, vir substituir-se às indiscutíveis verdades da Fé, desde sempre tomadas como eternas; mais do que isso, pareceu, a partir daí, tornar-se quase que obrigatório ter-se de optar exclusivamente ou por uma ou por outra, ou Ciência ou Fé, mas, certamente, não ambas. Passou, assim, a ser de bom-tom que aqueles que abraçassem a Ciência mantives­sem um distanciamento saudável (e, claro está, implicitamente sobranceiro) da Fé; e que, correspondentemente, aqueles que se apregoassem defensores da Fé, procurassem, sempre que possível (seguindo uma velha prática), diminuir ou contrariar os resultados da Ciência. (Recordo-me, por exemplo, de ainda ter visto, em meados do século passado, textos adoptados em colégios de religiosas, frequentados por amigas minhas no Rio de Janeiro, ridicularizarem a absurda ideia do homem ter resul­tado de uma linha de primatas anteriores.) E esta oposição, este virar de costas, vai-se mantendo, largamente difundido em múltiplas sociedades, mesmo naquelas detentoras de avan­çados sistemas de ensino.

Ainda hoje, praticar a Ciência implica, quase que automa­ticamente, repudiar a Fé, tomada esta como algo unicamente admissível pela imaturidade da criança ou pela estreiteza inte­lectual de mentes toscas, de poucas luzes e poucas letras. Aliás, nem mesmo é necessário ser-se praticante de Ciência para considerar a Fé como algo claramente impróprio depessoas suficientemente inteligentes e suficientemente cultas. (Suficiência obviamente entendida como significando superio­ridade, muita superioridade intelectual.) E, contudo, apesar de toda essa corte de gente brilhantíssima, esclarecidíssima, eruditíssima, vão havendo sempre aqueles para quem as posições da Fé e da Ciência, longe de se rejeitarem liminarmente, exi­gem-se mutuamente numa parceria que, mais do que legítima, é, quanto a mim, verdadeiramente indispensável; e nisto estou muito bem acompanhado. Disse-o Albert Einstein em 1920:“Em todo o verdadeiro investigador da Natureza há umaespécie de reverência religiosa, uma vez que não pode aceitar que tenha sido ele o primeiro a ter pensado os inexcedivel­mente delicados fios que ligam as suas percepções.”

Aqui, o que me cabe a mim é trazer a posição daqueles, como eu, que, sim, professam seriamente, convictamente, a Ciência, – companheira exigente, mas generosa – e que, sim, simultaneamente, entendem que essa companheira, – longe, muito longe de dispensar o divino – é quem, guiando-nos pelos rigorosos caminhos que lhe são próprios, nos aponta e nos concede o acolhimento da Transcendência; esses cami­nhos exclusivos da Ciência, que nos vão desvendando toda esta incomparável construção que compõe o nosso Cosmos. Permito-me insistir neste ponto essencial: é o próprio discurso da Ciência a oferecer-nos o entendimento da divindade ine­rente a este Mundo; a este Mundo de que nós homens viemos a constituir parte necessária, justamente para que, ao irmos conseguindo descortinar o suficiente da mensagem divina, pudéssemos maravilhar-nos com ela.

Temos hoje consciência de que é limitado o número de possibilidades pelas quais a Natureza pode funcionar eficien­temente, e a Natureza – de acordo com as suas leis –, procura sempre a eficiência, uma vez que uma menor eficiência obriga a um maior investimento de energia, a um “esforço” acrescido, e, portanto, antinatural, contra-natura. O que faz com que a evolução – seja de uma estrela do céu, seja de uma estrela do mar, seja lá do que for –, tenha que processar-se através dos poucos e estreitos caminhos de sucesso (isto é, eficientes), que, por uma sucessão de transições autorreguladas levem a patamares de crescente complexidade estrutural.

Daí haver cientistas – como, por exemplo, Simon Conway‑Morris, um paleontólogo da Universidade de Cambridge – que sustentam que, caso a aventura da vida – ela própria uma consequência natural, desde que haja as condições exigidas pelas especificidades da sua arquitectura molecular –, viesse a eclodir uma segunda vez – mesmo que em condições não inteiramente idênticas às que lhe deram origem –, ela seguirialinhas bastante semelhantes. A favor dessa proposição é bem sabido que, para desafios homólogos, diferentes grupos de orga-nismos criaram, repetidamente, soluções homólogas – fossem elas meios de locomoção, bocas, dentes, olhos, cérebros, ecossistemas ou sociedades –, no chamado processo de evo­lução convergente, que chegou a intrigar o próprio Darwin. E, no que particularmente nos diz respeito, o registo fóssil revelou já mais de uma dúzia de ensaios ocorridos em África, na linha de sucessivos primatas (por vezes, contemporâneos), que veio, eventualmente, a conduzir até ao Sapiens, até nós homens. Ensaios que evidenciam a necessidade, a obrigato-riedade da Natureza obedecer fielmente à linha orientadora nela divinamente impressa desde a incepção deste Mundo. Estreitos, sim, mas também seguros, foram, portanto, os cami­nhos da evolução biológica que conduziram ao nosso apareci­mento em África há não mais de duzentos mil anos.

Defendo, assim, que nós fomos incorporados ao Mundo natural como uma inevitável consequência de um processo evolutivo autorregulado, que levou ao aparecimento de uma série de primatas nossos antecessores, dotados de cérebros progressivamente mais aptos a perceber-se a si próprios e ao seu meio ambiente, até, finalmente, escatologicamente, se poderem dar conta da inevitabilidade da suprema ideia de Deus: Homo quodammodo omnia.

E isto tudo não foi, certamente, por acaso. É a Ciência que nos franqueia o acesso a esta verdade. Fiat lux, decidiu Deus e a Sua luz se acendeu em nós para que pudéssemos desen­volver a nossa Ciência e, com ela, irmo-nos dando conta do divino ordenamento de que fazemos parte; para que pudés-semos, com a nossa Fé, mas também, seguramente, com a nossa Ciência, interiorizar a ideia de um Criador transcendente que Se nos revela inequivocamente na delicada organização, que custosamente nos vamos revelando.

Um Criador que, tendo-nos feito à Sua imagem e seme­lhança, para nos salvar como Deus encarnado, fez-Se a Si à nossa imagem e semelhança. Um Criador que, assim, determinou generosamente oferecer-Se-nos como um de nós – nas­cendo, vivendo e morrendo como um de nós. Bem, não exactamente como um de nós: a Virgem – Sua e nossa Mãe – não é exactamente igual a todas as outras mães: Mãe, sim – como as demais –, mas Mãe única de Deus único; e, tão pouco, a Sua morte foi exactamente igual a todas as outras humanas:o Seu padecimento na Cruz, ao levá-Lo de volta ao Pai – d’Ele e nosso – deixou-O, para sempre, entre nós.

Esta posição – que é a minha – está em franco desacordo com a daqueles que propugnam que a evolução da vida aqui na Terra deve-se meramente a uma cadeia de eventos fortuitos,acidentais, conjunturais. Posicionamento este que, quanto a mim, para além de irremediavelmente míope – ao arvorar-se absurdamente como o único merecedor de crédito científico –, demonstra, isso sim, ser inadmissivelmente arrogante. Por outro lado, a não aceitação de que a inexcedível harmonia cósmica evidenciada pela observação e pela experimentação científicas se deva exclusivamente a uma inumerável sequência de acasos que, fortuitamente, levou até nós, permite-nos, no presente, apenas outras duas alternativas. Ou bem se entende este Uni­verso – tão magistralmente equilibrado, tão adequadamente preparado para ser a casa do homem – como meramente um entre uma infinidade de outros universos igualmente prová­veis, mas dos quais jamais poderemos ter notícia, mesmo que em princípio, o que faz com que toda essa infinita colecção de mundos se situe estritamente nos domínios da metafísica; ou – o que para muitos é ainda menos palatável – entender que este Universo, incomparavelmente concebido desde oprincípio dos tempos, de modo a poder vir a acolher-nos, é obra de uma Entidade, de uma Inteligência inimaginavelmente superior – sim, também ela metafísica –, que nós conhecemos pelo nome de Deus.

O surgimento deste nosso Cosmos deveu-se, julgamos nós, a uma flutuação quântica no vácuo, flutuação essa a que se convencionou chamar Big Bang e que gerou toda a energia disponível para sempre. Como, contudo, as menores escalas do espaço e tempo permitidas pela física de que dispomos (reconhecidamente incompleta e imperfeita no que respeita a estes pontos) correspondem a comprimentos da ordem de um milésimo trilionésimo de trilionésimo de centímetro (10-33 cm)e a intervalos de tempo da ordem de um décimo bilionésimo de trilionésimo de trilionésimo de segundo (10-43 s) a nossa Ciência não pode ir mais fundo do que isso, ela não nos pode levar ao instante da criação. (E, talvez – qualquer que seja a física que viermos a poder desenvolver no futuro –, não sepossa mesmo, por uma questão de princípio, ultrapassar os valores acima referidos, os quais são obtidos combinando‑se as constantes físicas fundamentais que caracterizam este Universo.) Deu-se, então, uma rapidíssima e imensíssima expansão cósmica (diz-se que o Universo “inflacionou”), logo seguida de uma expansão muitíssimo mais branda, que prossegue até hoje e que se prevê que prosseguirá indefinidamente.

Ao reflectirmos sobre a grandiosidade do quadro que a Ciência nos proporciona não podemos deixar de nos darmos conta das limitações que a nossa condição humana impõe à nossa capacidade de intelegir o Mundo. E devemos dar graças por nos ter sido facultada, pelo menos, a possibilidade de nos podermos maravilhar com aquilo que nos é dado concebere perceber: “Porque a grandeza e a beleza das criaturas” – diz‑nos o Livro da Sabedoria (13, 5) – “levam-nos, por com­paração, a contemplar o seu autor.”

Uma das coisas absolutamente essenciais que percebemosé que o nascimento do nosso Cosmos não cumpriu os crité-rios que poderíamos ser levados a admitir como sendo osexigidos por uma criação “perfeita”. Com efeito, não apenas a distribuição inicial de matéria não era rigorosamente homo­génea (apresentando irregularidades de uma parte em cem mil), como também a quantidade de matéria era ligeiramente superior à de antimatéria (uma parte em mil milhões). Não fossem, porém, essas, exactamente essas, as irregularidades presentes no Big Bang, isto é, não fossem precisamente essas as condições iniciais e o nosso Universo simplesmente não poderia existir: quaisquer outros valores dessas condiçõesiniciais teriam inviabilizado este Universo; este Universo – ondeviemos a aparecer, de modo a podermos dele dar conta –, decorre estritamente das condições iniciais estipuladas pelo Big Bang.

Este Cosmos, em toda a sua inteireza – assegura-nos a evidência científica –, é o resultado de um contínuo ajuste, de um delicado e subtil equilíbrio, existente, desde o princí­pio, e presente na sua evolução subsequente, pela qual se vão sucedendo estados cada vez estruturalmente mais complexos num processo – como já disse –, de contínua autorregulação.A evidência factual do absolutamente fantástico ajuste de todos os elementos componentes do arcabouço cósmico é iniludível. O astrofísico britânico Sir Martin Rees (antigo Presidente da Royal Society e Astronomer Royal) apontou que a natureza e estrutura deste Universo são determinadas por uma mera meia dúzia de constantes físicas precisamente ajustadas. De talmodo que bastaria alterar o valor de qualquer uma delas por apenas um por cento para que a vida deixasse de poderocorrer: se essas constantes não fossem tão perfeitamente sintonizadas, nós, certamente, não poderíamos encontra-nos aqui a ponderar sobre tudo isto.

Consideremos, por uns instantes, o nosso Universo, quando ele, muito mais pequeno, muito mais denso e muito mais quente do que hoje, tinha apenas, digamos, cem mil anos de idade. Fotões eram constantemente criados e aniquiladospor colisões com protões e electrões, também eles constante­mente chocando uns contra os outros. Uma enorme barafunda, na qual a luz não tem espaço, por assim dizer, para se poder propagar livremente. Com o continuar da expansão, as coisas foram-se acalmando até que, quando se chega aos trezentos e oitenta mil anos de idade, a temperatura cósmica baixara já o suficiente para que as colisões entre protões e electrões fossem já muito menos violentas, permitindo que pares cons­tituídos por um protão e um electrão se unissem em casais estáveis: estava formado o primeiro e mais simples elemento químico – o hidrogénio –, havendo, então, pela primeira vez, ensejo para que os fotões se pudessem propagar livre­mente. O Universo passara, com isso, a uma fase mais ordeira e mais estruturada, isto é, mais complexa que a anterior.

A distribuição desse hidrogénio no Cosmos de então acompanhou as irregularidades originais – que, aliás, se haviam limitado a acompanhar a expansão –, fazendo com que houvesse regiões com maior concentração de átomos do que outras. Nas partes centrais das regiões mais densas e mais quentes dessas imensas nuvens de gás, os átomos de hidrogénio foram readquirindo velocidades cada vez mais elevadas, fazendo com que os choques entre eles voltassem a desfazer o matrimónio atómico, permitindo que os protões, novamente solteiros, ao colidirem entre si, se fundissem num novo elemento químico, o hélio, processo esse acompanhado pela emissão de luz. Era o nascimento, nessas regiões, da pri­meira geração de estrelas.

Aqui, outra vez, dava-se a transição de uma fase mais sim­ples, menos ordenada, para outra estruturalmente mais com­plexa: agora, pela primeira vez, há estrelas no Mundo. Essas estrelas, sendo extremamente maciças, acabaram por explodir após alguns poucos milhões de anos, emitindo para o espaço à sua volta um leque de novos elementos químicos, sinteti­zados precisamente durante o seu curto processo explosivo. Com o passar do tempo, nessa enorme nuvem de hidrogénio, agora fertilizada por uma centena de elementos químicos (as “cinzas” de uma estrela que aí explodira), a gravitação, sempre presente, sempre actuante, volta a gerar uma outra bola de gás a girar, que se vai contraindo e aquecendo, até que nasça uma nova estrela de segunda geração, acompanhada agora por um cinturão de pequenas partículas constituídas pelas tais cinzas a rodar à sua volta. Daí, desses grãos de poeira, que virão crescendo progressivamente pela aglutinação provocada pelas sucessivas colisões entre eles, irão formar-se, com o passar do tempo, corpos muito maiores – alguns rochosos, outros gasosos, a que chamamos planetas, dando lugar a um sistema planetário em órbita em torno da sua estrela.

Sabemos de um sistema desses de tal modo bem consti-tuído que pôde vir a albergar estruturas cuja complexidade arquitectural requereu – para que essa complexidade pudesse eclodir e evoluir – a conjugação de múltiplos factores condi­cionantes. Assim, para começar, a estrela mãe desse sistema planetário, além de se encontrar situada numa zona de um braço espiral da sua galáxia a uma distância confortavelmente segura da agitação da região central, possui a massa adequada para que ela possa vir a durar uma boa dezena de milhares de milhões de anos, a maior parte dos quais numa fase de suficiente estabilidade que possa ser partilhada pelos filhos girando em torno de si.

O terceiro planeta a contar dessa estrela é, por sua vez, dotado de um conjunto de características que, bem vistas as coisas, são excepcionalmente favoráveis. Favoráveis? Mas favoráveis a quê? Vejamos então algumas delas. A distância a que esse terceiro planeta se encontra da sua estrela é exacta­mente a apropriada para permitir a existência de água líquida. Dispõe de um núcleo de ferro líquido em rotação, que gera um campo magnético que lhe serve de escudo contra ochuveiro de partículas muito energéticas vindas do exterior. Isso, além da sua massa ser suficiente para manter uma atmos­fera gasosa que também blinda a sua superfície da compo­nente mais energética (ultravioleta) da luz que lhe chega da sua estrela. Mais ainda, o quinto planeta do sistema, sendo muito maior e mais maciço que esse terceiro, atrai para si a quase totalidade dos asteroides que, sem a sua presença, poderiam incidir sobre o tal terceiro planeta. Menciono, final­mente, que este último possui um satélite que, entre outras coisas, proporciona-lhe importantíssimas marés nas suas gran­des massas líquidas. O somatório desses (e, ainda, de outros) factores concedeu a esse corpo celeste as condições neces-sárias e suficientes para que nele viessem a surgir sistemas cuja complexa arquitectura molecular capacita-os a se autor­reproduzirem e, mais do que isso, a evoluírem para sistemas mais e mais complexos, até que um deles chegasse a poder reflectir sobre o quadro natural, cuja subtil e refinada perfeição ele foi, lentamente, aprendendo a admirar.

Um exemplo particularmente relevante – sobretudo no que diz respeito –, da precisão do rigoroso equilíbrio por que se pauta este nosso Cosmos é o da formação do carbono durante os poucos segundos que dura a destruição explosiva de uma supernova. Com efeito, o carbono é o único átomo capaz de se ligar em cadeias moleculares estáveis dotadas da complexidade arquitectónica exigida pelos seres vivos: a vida, tal como a conhecemos, não seria exequível sem carbono.Já vimos como é que se deu a formação do hidrogénio e do hélio, porém, como é que os demais elementos químicos, em particular, o carbono, são fabricados pelas estrelas? (Não esquecendo que a Ciência actual não está em condições de propor qualquer mecanismo apto a justificar a emergência das partículas básicas – electrões, quarks, etc. –, das flutuações do vácuo, a partir das quais a narrativa física pode razoavelmente prosseguir.)

Bem, se uma estrela só contém hidrogénio e hélio, este último, por ser mais pesado, vai-se concentrando no núcleo dessa estrela até que aí, nessa região central, a quantidade de hidrogénio passa a ser extremamente reduzida. Para que a estrela se consiga manter em equilíbrio, a estrela vai ter que lançar mão, lá no seu interior, do único combustível ao seu dispor para gerar a energia necessária para se opor à contracção gravitacional: ela passa a ter de “queimar” hélio. Ou seja, começam a ocorrer reacções nucleares entre núcleos de hélio, que dão lugar ao berílio. (O quarto elemento químico;o terceiro é o lítio, formado por reacções de protões com núcleos de hélio.) Ao reagir com um terceiro núcleo de hélio, este berílio dá lugar ao carbono. Parece linear, só que esse berílio é altamente instável, decaindo em dois hélios quase que instantaneamente (10-16 s) após a sua formação, o que parece inviabilizar totalmente a enorme abundância de carbono disse­minada pelo Cosmos. Levou tempo para que se desvendasse que, o que aqui está em jogo, é um exemplo flagrante do incrível ajustamento evidente na Natureza: descobriu-se que, miraculosamente, o carbono pode existir num nível excitado instável dispondo de dois canais de decaimento, um deles em hélio mais berílio, que prontamente dá lugar a três hélios, isto é, ao ponto de partida, e de um outro – e é aqui que reside o milagre – com a energia exactamente adequada para que o carbono excitado decaia directamente em carbono estável.E, agora, existindo carbono, a cadeia de reacções nucleares pode prosseguir rapidamente na estrela moribunda, dando lugar a que a reacção carbono mais hélio produza oxigénio, elemento indispensável para que possa existir água; água sem a qual não poderiam ter surgido – desde a sua emergência aqui na Terra há pelo menos três mil e oitocentos milhões de anos –, os estimados 50 mil milhões de espécies vivas (hoje reduzidas a um milésimo disso).

A visão que a nossa inteligência tem vindo a construir de nós próprios e da nossa relação com tudo aquilo que temos sido capazes de discernir é formalizada pelos cerca de mil e quatrocentos centímetros cúbicos de matéria organizada em meia dúzia de subestruturas convenientemente encaixadas umas nas outras que compõem o nosso cérebro.

Uma vez aqui chegados, é difícil – é mesmo muito difícil –não se ser possuído pela verdade da Transcendência como a única responsável por todo este requintado encadeamento, precisamente autorregulado, presente há treze mil e setecentos milhões de anos: “as perfeições invisíveis de Deus (…) são visíveis nas suas obras, por meio da inteligência,” nas palavras de S. Paulo na sua Carta aos Romanos (1, 20); ou mesmo nas de Einstein: “Todo aquele que esteja seriamente envolvido na busca da Ciência convence-se que um espírito se manifesta nas leis do Universo – um espírito vastamente superior ao do homem.” Ou como, em 1982, o admitiu Fred Hoyle, o físico britânico que, trinta e cinco anos antes propusera o fantás­tico mecanismo esboçado acima pelo qual a Natureza chega ao carbono: “Uma interpretação sensata dos factos sugere que um intelecto superior tenha manipulado a Física, a Química e a Biologia, de modo a que não faça sentido falar na existência de forças cegas na Natureza. Os números calculados a partir dos factos afiguram-se-nos tão avassaladores que, quase que inquestionavelmente, asseguram essa conclusão.”

Todavia, é preciso ter presente que – apesar de vasta-mente superior à de qualquer outra espécie viva aqui na Terra –, sendo a nossa inteligência necessariamente limitada, devemos reconciliar-nos com a admissão de que a nossa com­preensão, seja do domínio natural, seja do domínio transcendente, permanecerá, inevitavelmente, para além de obrigatoriamente provisória, também inevitavelmente imperfeita, incom­pleta; isto é, irredutivelmente humana. Einstein admitiu-o em 1941: “Todo o nosso conhecimento é apenas o de crianças de escola. Possivelmente, saberemos um pouco mais do que agora, mas a natureza real das coisas, isso, nós nunca sabe-remos, nunca.”

Porém – apesar de, para muitos cientistas (entre os quais eu me incluo), a Ciência poder facilitar, e até mesmo apontar, o caminho para a Transcendência –, devemos ter consciência de que a Fé, enquanto tal, tem, necessariamente, de situar-se para além da Ciência, mesmo porque: “A fé, se vivesse apenas das provas racionais ou evidências empíricas, deixaria de ser fé”, como bem escreve o padre jesuíta António Valério.

A realidade do Mundo – do qual fazemos parte essencial para que essa realidade, através de nós, adquira sentido –, conduz-nos naturalmente à omnipresença de Deus; Deus que Se nos manifesta expressamente em cada grão de pó, em cada gota de água, em cada cintilação de luz e, mais do que isso, em cada um de nós: “Deus é o existirmos e isso não ser tudo”, como resumiu Pessoa em palavras que tanto dizem. E se o Mundo deve espelhar a presença de Deus, a eterna presença de Deus explicita-se na Sua humanização. Aqui na Terra, na casa que Ele deu ao homem, Deus decide humanizar-Se: por ser Pai do homem, Deus concede ser Filho do homem. Por ser o nosso Criador, Deus vem, humanamente, expressar-Se como um de nós: Como homem, nascer, viver, morrer – como um de nós; como Deus, nascer, viver, morrer por nós; ressuscitar por e para nós.

Ao fazer-Se um de nós, Deus dispôs-Se, humanamente, ao nosso alcance: pudemos vê-Lo, falar-Lhe, abraçá-Lo e até, para que tudo se cumprisse, para que Ele nunca nos faltasse, pudemos cravá-Lo à Sua e, a partir daí, também nossa Cruz. Possuímos, a partir daí, guardada nos evangelhos, espalhada por S. Paulo, a memória da Sua encarnação; da Sua humani­zação em Cristo Jesus. Amigo e abrigo ímpar de cada um e de todos nós, aí incluídos, seguramente, aqueles que não chegam a admiti-lo: Vocatus atque non vocatus Deus aderit. (Chama­dos e não chamados, Deus lá estará.)

 

in Brotéria, Volume 178, nº 4 - Abril 2014, pp. 321-332 .


* Doutor em Física pela USP, professor catedrático jubilado da Universidade de Évora.


 


Texto baseado numa palestra realizada no CAFJEC de Braga em 15 de Março de 2014.

 
You are here: Página Inicial Revista Brotéria Artigos ABRIL 2014 - Se há ciência, para quê Deus?