Revista Brotéria

  
JULHO 2014 - Notas Breves: O pecado original segundo Frei Bento Domingues O.P. PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Roque Cabral, S.J. *   

Artigo 07-14 - O Pecado Original segundo Frei Bento Domingues OP RC sj - Imagem

Inteligência brilhante, servida por pena igualmente brilhante e dispondo de uma bem provida biblioteca, tal me aparece Frei Bento Domingues, da Ordem dos Pregadores, e cujos textos tenho acompanhado há anos, sempre com interesse, muitas vezes concordando.

 


Tratar de forma jocosa ou provocante assuntos sérios, até sagrados, é característica de muitos dos textos que Frei Bento destina para o grande público. Talvez pretenda com isso desa­nuviar espíritos e pacificar almas, tantas vezes atormentadas por erradas e sombrias ideias acerca do boníssimo Deus e seus mistérios. Louvável e benfazeja intenção, indiscutivelmente. Mas não de qualquer modo.

Esta última restrição é-me sugerida pelo último artigo, publicado no Público de 22 de Junho: “Um pecado muito original”1. Objectivamente, este título tende, por si só, a insinuar no espírito do leitor desconfiança e rejeição relativamente à doutrina católica do pecado original, o que aliás todo o artigo irá claramente reforçar.

O texto parece-me bastante criticável e com algumas defi­ciências graves, como procurarei mostrar sumariamente.

Sente-se em todo o artigo uma espécie de “alergia” inte­lectual ao tema do pecado, não apenas o original, à mistura com alguns erros que, neste autor, surpreendem.

Frei Bento Domingues não admite o pecado original2.

E surpreende-me o seu principal argumento, mais que pro­blemático. Podemos sintetizá-lo do seguinte modo: o pecadooriginal “não pode ser cometido” por ninguém; não só não existe como, porque “impraticável”, nem pode existir.

Esta formulação do argumento é da minha lavra, mas julgo que ela exprime correctamente o que pensa o autor. Cito: “É óbvio que pecar implica saber e querer praticar o mal, isto é, vontade livre. O que não podia ser atribuído a um recém-nascido, por mais precoce que ele fosse”. Embora não o diga explicitamente, parece claro, por esta passagem, que Frei Bento Domingues conclui que não se pode atribuir ao recém-nascido nenhum pecado. Porquê? Porque parece ser sua convicção que há só um tipo de pecado, precisamente aquele que acima referiu e que implica “vontade livre”. Como o recém-nascido não é capaz deste pecado, se não houver outro tipo de pecado, o pecado original é uma ilusão, à doutrina a seu respeito estaria reservado o inglório fim que teve a doutrina do limbo3.

Explicitando um pouco mais: o que a opinião do autor implica é que ele parece conhecer apenas uma espécie de pecado, o pessoal e livre, ou seja, o pecado moral. Por outras palavras: tem uma concepção unívoca de pecado; para ele, a palavra “pecado” é unívoca, tem sempre o mesmo sentido de “saber e querer o mal”. Por essa razão, repito, não se pode falar do pecado original, realidade ilusória em torno da qual gira todo o artigo de Frei Bento Domingues. O autor parece ignorar ou minimizar algo de capital importância em toda esta matéria: o carácter analógico do termo e noção de pecado, que se aplica de maneira semelhante-e-diferente. É ingrato apontar-lhe uma falha de tal magnitude. Uma coisa é o pecado pessoal e livre, um acto; outra, uma situação herdada, o pecado original originado.

Recorda Frei Bento que, segundo a doutrina, houve uma excepção, a da concepção imaculada de Maria4. Não é muito feliz, a meu ver, a maneira como trata este ponto, razão por que não o desenvolvo.

Outra tese sua: “do ponto de vista ético, não pode haver pecados hereditários”. Frase altamente ambígua. Se tivermos presente que Frei Bento Domingues parece ignorar o carácteranalógico da noção de pecado, limitando-se a utilizar uma noção unívoca, torna-se-nos compreensível esta sua tese – a qual,contudo, não fica por isso mais aceitável. Permanecerá para sempre, incorrigivelmente, ambígua.

A concluir o artigo, lemos uma afirmação com a qual talvez espontaneamente sintonizemos: “Nenhum ser humano… tem que vir ao mundo com má reputação, eticamente caluniado”.

Só que importa não esquecer tratar-se da conclusão de um artigo que pretende pôr em cheque a doutrina do pecado original. Sem o dizer, mas creio que pensando-o e sugerindo-o, Frei Bento Domingues dá a entender que, segundo a doutrina do pecado original, todos os humanos vêm a este mundo “com má reputação e eticamente caluniados”. E afirma que não tem de ser assim.

Estamos perante a última e problemática tese do artigo que nos tem ocupado. De que lado está a razão?

Se, como ele pretende, nós não vimos a este mundo – não temos de assim vir – “com má reputação e eticamente caluniados” (se não vimos ‘manchados’ pelo pecado original), pergunto: que impedia então Nicodemos e que impede os demais humanos de entrarem, sem mais, no Reino de Deus, uma vez falecidos? Porque é que, eles e nós, temos – à luz das claras5 palavras de Jesus ao “mestre em Israel” (Jo 3, 5) – de “nascer de novo”, da água e do Espírito? Não teremos neces­sidade de ser “limpos”, ou libertos de algo que trouxemos ao nascer?

Concluindo: não posso, de modo nenhum, concordar com a teologia do pecado original de Frei Bento Domingues, que aprecio e com o qual em tantas matérias tenho concordado.

 

in Brotéria, Volume 179, n.º 1 - Julho 2014, pp. 84-86.


* Professor Jubilado da Universidade Católica Portuguesa de Braga.


 

 

1 Título que é indiscutivelmente um "achado" - coisa frequente nos escritos de Frei Bento Domingues.

2 O mais que Frei Bento Domingues “admite” do pe­cado original encontra-se na seguinte curiosa e algo re­buscada formulação: “Para mim, em não existir como se existisse, de modo omnipresente e desde sempre, consiste a sua grande origi­nalidade” (itálico meu).

3 Sai fora das dimensões do meu texto tratar, por pouco que seja, o tema do limbo e seu recente abandono. Mas importa sublinhar as profun­das diferenças doutrinais dos dois temas, pecado ori­ginal e limbo.

4 Recordo que S. Tomás, por ponderosas razões teológicas, demorou tempo a admitir a conceição imacu­lada de Maria, a qual, entretanto, o franciscano Duns Escoto fundamentou teolo­gicamente.

5 Como as estrelas, assim as palavras de Jesus: tão “cla­ras” (luminosas), que todos as vêem e tão “altas” que ninguém as atinge (Padre A. Vieira).

 
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