Revista Brotéria

  
ABRIL 2015 - O "combate" do Papa Francisco PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Porfírio Pinto *   

Artigo 2015-04 - O combate do Papa Francisco PP

O Papa Francisco, desde que foi eleito em março de 2013, não para de surpreender. E é a partir do termo “surpresa” que ele tem sido abordado por alguns experts do fenómeno religioso católico1. Mas, ao mesmo tempo, parece consensual que ele não é nenhum “revolucionário”, antes pelo contrário, sempre foi de algum modo alinhado com os “conservadores”. A sua proveniência latino-americana e a sua alma de pastor permitem, talvez, aproximar a sua figura de bispos como D. Hélder Câmara ou, até, Monsenhor Óscar Romero. Porém, o traço mais característico da sua personalidade tem que ver com a sua filiação religiosa: mesmo Papa, ele continua a ser profundamente jesuíta.

António Spadaro tem defendido que o papa Francisco “tem uma visão agónica e agonística da realidade, poderíamos dizer, neste sentido, ‘militante’ ”2, que lhe viria da “Meditação das Duas Bandeiras” dos Exercícios Espirituais (EE, 136-148)3. Percorrendo os escritos de dois anos de pontificado, facil­mente podemos constatar que, efetivamente, o tema da “luta” – ou, se quisermos, do “combate” – está omnipresente nas palavras de Francisco. E apesar dele ter, certa vez, evocado a imagem da Igreja como “hospital de campanha”, não nos parece que as palavras sejam de entender em sentido marcial, mas evocam simplesmente a dinâmica do discernimento no seguimento de Cristo.

Meditação das Duas Bandeiras
A fonte inspiradora da meditação das Duas Bandeiras – é hoje ponto assente – é a visão da Cidade de Deus de Santo Agostinho, na versão apresentada pela Flos Sanctorum (ou Legenda áurea) do dominicano Jacopo de Varazze4. A medi­tação inaciana, concretamente, não fala diretamente de uma batalha, mas de “dois campos”: um sitiado na Babilónia, em que a primeira bandeira (Lúcifer, “o inimigo mortal da natu­reza humana”) recruta soldados para as suas fileiras; o outro sitiado em Jerusalém, em que a segunda bandeira (Jesus Cristo, “nosso sumo Capitão e Senhor”) faz o mesmo5. Uma vez recrutados os seus soldados, uma e outra bandeira exorta-os, antes de os enviar pelo mundo: os da primeira bandeira (Lúcifer), para procurar enredar os homens com a cobiça das riquezas, a honra do mundo e a soberba; os da segunda ban­deira (Cristo), para levar os mesmos homens à pobreza tanto espiritual como atual, ao desejo de opróbrios e desprezo e, por último, à humildade.

Parece evidente que o objetivo desta meditação não é que o exercitante opte por Cristo ou por Lúcifer (as duas bandeiras) – uma opção que, no entender de Inácio, já deve­ria ter sido tomada no termo da “Meditação do Reino” (EE, 91-100) –, mas, antes, ajudá-lo a realizar um discernimento do seguimento de Jesus, à luz dos Evangelhos. E não é por acaso que esta meditação é colocada, por Inácio, entre o batismo de Jesus e as tentações no deserto. A exegese atual reconhece, com efeito, que é esse o contexto em que Jesus teve de refletir e discernir acerca do seu messianismo6.

As tentações de Jesus não são uma narrativa moralizante, de um suposto combate entre Deus e Satã, mas a expressão de dois tipos de messianismo possíveis, duas lógi­cas perante as quais a pessoa é confrontada no seu próprio interior: a lógica da autossuficiência, da segurança, da racionalidade sem mistérios, triunfalista e alheia ao sofrimento do povo (ou seja, uma lógica de “sistema”); e a lógica da solidariedade, da vulnerabilidade, da simplicidade e da pobreza (e o mesmo é dizer, uma alternativa a esse mesmo “sis­tema”)7.

O discernimento feito por Jesus é proposto agora, por Inácio, ao exercitante. Ele deve renunciar à lógica da autossu­ficiência, da segurança mundana, do poder triunfalista, e optar pela lógica da solidariedade, da pobreza, da humildade. Ou seja, identificar-se com o “abaixamento” do próprio Cristo (a chave quenótica dos Exercícios Espirituais8). E este foi também o programa de Inácio para a Companhia de Jesus, como revela uma passagem de uma carta de Polanco aos jesuítas de Pádua: “A amizade com os pobres torna-nos amigos do Rei eterno”9.

A ação do diabo no mundo
Quem segue com atenção as homilias matinais do Papa Francisco na Casa de Santa Marta tem-se espantado com a sua frequente referência à ação do diabo (ou do demónio) no mundo. É uma linguagem que parecia ultrapassada: nos últimos decénios, o mais habitual é silenciar o tema da demo­nologia, ou tomá-la como mera metáfora.

O Papa argentino, no entanto, volta a colocá-la na “ordem do dia”: “Fizeram crer a esta geração – e a tantas outras – que o diabo era um mito, uma figura, uma ideia, ideia do mal, mas o diabo existe e nós temos de lutar contra ele” (Homilia no dia 20 de outubro de 2014). Nestas palavras, Francisco é inaciano e está a pensar concretamente na meditação das Duas Bandeiras.

O seu amigo judeu, Abraham Skorka, admira-se que ele continue a falar do demónio nestes termos: “Eu, pessoalmente, interpreto Satanás como uma hipóstase do próprio Deus, que coloca o homem à prova e o instiga, e que apresenta a Deus o erro que este terá cometido ao criar o homem, como se vê no primeiro capítulo do livro de Job”10. Querendo falar do mal – enquanto ausência do bem –, este rabino judeu prefere pensar num “instinto desviante” no interior do próprio homem11. Mas Bergoglio evoca as tentações de Jesus (como vimos, o con­texto da meditação das Duas Bandeiras) para falar também de uma perspetiva exógena: há uma tentação externa que impede que se possam demonizar as pessoas12. A existência pessoal é então uma constante luta “para superar situações e superar-se [a si próprio]”13.

“Luta pelo poder” e “luta com Deus”
Na já mencionada introdução ao livro que recolhe um ano de homilias na Casa de Santa Marta, A. Spadaro chama ainda a atenção para dois tipos de luta – a “luta pelo poder”, obra do Maligno, e a “luta com Deus”, como experiência de fé14 – que são, a nosso ver, uma “atualização” bergogliana da meditação das Duas Bandeiras.

A “luta pelo poder”, ou, por outras palavras, a idolatria do poder (autoridade, domínio, influência), do dinheiro e da vaidade15, é obra do “príncipe deste mundo” e não devia exis­tir na Igreja16. A vontade de poder leva sempre à corrupção, e a corrupção faz muito mal à Igreja! “Dos corruptos diz o apóstolo João que são o Anticristo, que estão no meio de nós, mas não são dos nossos”17.

Esta “luta pelo poder” não é outra coisa senão a “mun­danidade”, ou “espírito do mundo”, contra o qual insiste permanentemente Francisco, e que é a pedra angular da sua “reforma” da Igreja, como podemos verificar no discurso que fez diante dos pobres, em Assis, no dia 4 de outubro de 2013. O Papa recorda o gesto de despojamento de Francisco de Assis, mas sobretudo o exemplo, ou melhor, o “caminho” de Cristo: despojando-se, tornando-se “servo”, humilhando-se, morrendo na cruz. O Papa di-lo convictamente:

«Alguém dirá: “Mas do que se deve despojar a Igreja?” Deve despojar-se hoje de um perigo gravíssimo, que ameaça todas as pessoas na Igreja, todos: o perigo da mundanidade. O cristão não pode conviver com o espírito do mundo. A mundanidade que nos leva à vaidade, à pre­potência, ao orgulho. E isto é um ídolo, não é Deus. É um ídolo! E a idolatria é o maior pecado!»

No âmago da fé cristã, Francisco coloca a atitude de “luta com Deus”. No dia 20 de maio de 2013, o Papa partilhou na homilia o caso daquele eletricista argentino que, tendo a sua filha de sete anos adoecido gravemente, se dirigiu ao Santuário de Lujan para rezar pela sua filha18. Diante do desespero, aquele homem lutava com Deus, pela oração, e o milagre aconteceu… O sentido desta luta explica-o o Papa cinco meses mais tarde, no Angelus de 20 de outubro de 2013, colocando como exemplo evangélico o daquela pobre viúva, que insiste junto do juiz iníquo (Lc 18, 1-8): “lutar com Deus” constitui o cerne da experiência de fé, de que encontramos muitos exemplos nas Escrituras (Abraão, Moisés, David, etc.)19.

A luta do cristão é contra o mal, que existe fora e dentro de cada um, e ele sabe que pode contar com a presença e a assistência de Deus. É esse o sentido daquela insistência junto de Deus: o combate contra o mal é titânico, mas o cristão sabe que pode contar com a assistência divina.

Discernimento pessoal
A maior parte das vezes, falar de luta, de combate, leva-nos de imediato a imaginar dois lados: o lado bom e o lado mau. É a velha tentação maniqueísta! E mesmo se a meditação das Duas Bandeiras nos fala de dois “campos”, aquilo que ocorre, em definitivo, são duas “opções”, remetendo-nos para o foro íntimo, para a luta interior do discernimento pessoal. O cristão, tendo escolhido seguir Jesus Cristo, deve “alinhar-se” naturalmente sob a bandeira do “sumo Capitão e Senhor” e não se deixar tentar pelas “hostes” do “inimigo mortal da natureza humana”.

Portanto, pedir para ser recebido sob a bandeira de Jesus, em pobreza e opróbrios (EE, 147), é claramente escolher o estilo de vida de Jesus: a lógica da solidariedade (o abai­xamento quenótico de Deus), da vulnerabilidade (aceitar o conflito com os poderosos), da pobreza (a opção preferencial pelos pobres). É o “estilo de Deus” e do cristão; e não há outro caminho. Ou melhor, há um outro caminho, o do mun­danismo, mas este não tem nada a ver com Cristo, mas com o Maligno20.

A “reforma” da Igreja
A intuição inaciana tal como é expressa na meditação das Duas Bandeiras é profundamente profética, face à Igreja de cristandade do seu tempo, aliada do poder político e econó­mico, e que Santo Inácio desejava reformar, tanto ou mais que o seu contemporâneo Martinho Lutero.

A aliança da Igreja com o poder (político) foi uma ten­tação permanente na história do Cristianismo. O “império cristão” converteu de imediato a Igreja num fator político: o Reino de Cristo devia tomar forma de um reino político, e a debilidade da fé – a debilidade terrena do próprio Cristo – devia ser “suportada pelo poder político e militar”21.

A proposta da meditação das Duas Bandeiras significa renunciar a todo o triunfalismo e acolher a lógica de uma Igreja pobre, livre e dos pequenos. Ora, Francisco anunciou, desde o início, que queria uma “Igreja pobre e para os pobres”. Não foi o primeiro a fazê-lo. João XXIII já havia falado de uma “Igreja dos pobres” (uma expressão que se tornou muito querida de Monsenhor Óscar Romero) e o Concílio Vaticano II reconhece que o ministério de Jesus acontece sobretudo entre os pobres (cf. LG, 8). Por isso mesmo, na Conferência de Aparecida, em 2007, Bento XVI afirmava que em toda a fé cristológica está implícita a opção pelos pobres22, e o Documento final de Aparecida retoma precisamente essa ligação: “Tudo o que tenha a ver com Cristo tem a ver com os pobres, e tudo o que está relacionado com os pobres clama Jesus Cristo” (n.º 393).

Como afirma Victor Codina, os pobres são um “lugar teológico” que nos ajudam a descobrir o verdadeiro rosto do Deus bíblico23 e a lançar um olhar crítico às condições histó­ricas que nos conduziram à presente situação. Os impérios coloniais ocidentais, as empresas multinacionais exploradoras e o capitalismo neoliberal selvagem do mercado atual foram e são liderados por “cristãos” do Primeiro Mundo que, com toda a evidência, não levaram muito a sério a dimensão quenótica da proposta de Jesus.

Apesar da empatia que gerou em todo o mundo, será que o convite e o combate do Papa Francisco encontrará res­posta e contagiará o mundo atual? O Papa argentino conhece a dificuldade da sua missão: “Um estilo [de Deus] que nunca deixará de nos surpreender e pôr em crise: não chegamos jamais a habituar-nos a um Deus humilde!”24


 in Brotéria, Volume 180, n.º 4 - Abril 2015, pp. 329-335.


* Investigador do CLEPUL.


1 Referimos apenas dois títulos de duas importantes figuras católicas: Andrea Riccardi, La sorpresa di papa Francesco. Crisi e futuro della chiesa, Milão, Mondadori, 2013; Anne Soupa, François, la divine surprise: Ce pape va-t-il convertir l’Église?, Paris, Médiaspaul, 2014.
2 Papa Francisco, A verdade é um encontro: Homilias de Santa Marta, Prefácio de Federico Lombardi, Introdução e notas de Antonio Spadaro, Prior Velho, Paulinas Editora, 2014, p. 27.
3 Santo Inácio de Loiola, Exercícios Espirituais [EE], tradução do autógrafo espanhol, por Vital Cordeiro Dias Pereira, sj, organização e notas de F. de Sales Baptista, s.j., 3.ª ed., Braga, Livraria AI, 1999.
4 Cf. Maurizio Costa, s.j., “Banderas”, in Grupo de Espiritualidad Ignaciana, Diccionario de espiritualidade ignaciana, dir. por José G. de Castro, vol. 2, Bilbao-Santander, Mensajero/Sal Terrae, 2007, pp. 211-221.
5 No texto da Legenda áurea, as duas cidades (Babilónia e Jerusalém) são construídas por dois am-res: o amor de si próprio, que cresce até ao desprezo de Deus e permite construir a cidade do diabo; e o amor de Deus, que cresce até ao desprezo de si mesmo e constrói a cidade de Deus. Cf. Víctor Codina, s.j., “Dos Banderas” como lugar teológico, Barcelona, Cristianisme i Justícia, 2009, p. 23 (nota 2).
6 J. A. Pagola, Jesús. Aproximación histórica, 5.ª ed., Madrid, PPC, 2007.
7 Cf. V. Codina, op. cit., pp. 7-8.
8 Cf. Ibidem, p. 12.
9 Carta de 7 de agosto de 1547 (BAC 817), citada em V. Codina, op. cit., p. 15.
10 A. Spadaro, O. Abboud, A. Skorka, Superar o muro: Diálogo entre um muçulmano, um rabino e um cristão, Prior Velho, Paulinas, 2015.
11 Jorge M. Bergoglio, Abraham Skorka, Sobre o céu e a terra, São Paulo, Paralela, 2013, p. 20.332
12 Ibidem.
13 Ibidem, p. 19.
14 Cf. Papa Francisco, op. cit., p. 29.
15 Cf. ibidem, pp. 531-532. Na meditação das Duas Bandeiras, a obra da milícia de Lúcifer é, precisamente, enredar os homens com a cobiça das riquezas, a honra do mundo e a soberba.
16 Cf. ibidem, pp. 121-123 e 157-158.
17 Ibidem, pp. 188-190.333
18 Papa Francisco, op. cit., pp. 154-156.
19 Cf. Cardeal Bergoglio, Carta aos sacerdotes, consagrados e consagradas da Arquidiocese de Buenos Aires, 29.7.2007.334
20 Cf. Papa Francisco, Homilia na celebração do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, 29 de março de 2015. Nesta mesma linha – do “estilo de Jesus” – poderíamos interpretar o Sermão do Mandato de 1650 (1651), do Padre António Vieira: indo mais além das interpretações teológicas de Agostinho, Tomás de Aquino ou João Crisóstomo, o orador jesuíta interpreta a maior fineza de Cristo, à luz do seu estilo de vida, ou seja, “a maior fineza de Cristo hoje foi querer que o amor, com que nos amou, fosse dívida [obrigação] de nos amar-mos” (§ XI).
21 Joseph Ratzinger, Jesus de Nazaré. I. Do Batismo no Jordão à Transfiguração, trad. de José Jacinto Ferreira de Farias, São Paulo, Planeta, 2007, p. 50.
22 Bento XVI, Discurso inaugural da V Conferência do Episcopado Latino-americano e do Caraíbe, n. 3. Cf. V. Codina, op. cit., p. 19.
23 Cf. V. Codina, op. cit., p. 21.
24 Francisco, Homilia na celebração do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, 29 de março de 2015.

 
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