NOVEMBRO 2015 - Editorial - Uma Igreja misericordiosa para um mundo ferido Versão para impressão
Revistas jesuítas europeias de Cultura   

Artigo 2015-11 - Editorial - Uma Igreja misericordiosa para um mundo ferido RJEC

Este texto retoma uma iniciativa da Conferência destas Revistas de Cultura – tal como a primeira entrevista pormenorizada ao Papa Francisco, de Agosto de 2013, que, em 19 de Setembro de 2013, foi divulgada em simultâneo nos websites das revistas jesuítas europeias. O texto, cujo ori­ginal em inglês é da autoria de Daniel Izuzquiza SJ (Madrid) e Andreas R. Batlogg SJ (Munique), é publicado em “Anoichtoi Horizontes” (Atenas), “Brotéria” (Lisboa), “Choisir” (Genebra), “La Civilità Cattolica” (Roma), “Études” (Paris), “Razón y Fe” (Madrid), “Signum” (Uppsala), “Stimmen der Zeit” (Munique), “A Szív” (Budapeste) e “Thinking Faith” (Londres).

 

Recordemos três factos ocorridos com o Papa Francisco, enquanto pequenos sinais que nos ajudam a reflectir sobre o Ano Santo da Misericórdia que agora se inicia. Em 17 de Março de 2013, na primeira recitação do Angelus após a sua eleição como Papa, Jorge Mario Bergoglio SJ citou o livro “Misericórdia”1 do Cardeal Kasper, de que disse “fez-me muito bem”. À época, poucos puderam prever a importância que este tema iria ter no seu pontificado.

Também naquela altura, o próprio Francisco explicou o significado da sua divisa papal Miserando atque eligendo, na entrevista então dada a Antonio Spadaro SJ para as Revistas Jesuítas que agora divulgam este Editorial conjunto. Disse o Papa: “O gerúndio latino miserando parece-me ser impossível de traduzir para italiano ou espanhol. Eu preferiria traduzi-lo para um outro gerúndio, que nem sequer existe: misericordiando2. Quanto ao terceiro exemplo, esse encontramo-lo nessa mesma entrevista, na qual o Papa Francisco claramente afirma “que aquilo de que a Igreja hoje necessita é a capaci­dade de curar feridas e aquecer os corações humanos – pro­ximidade e solidariedade. Eu vejo a Igreja como um hospital de campanha após uma batalha.”3

 

Um coração misericordioso

Tendo presentes estes dados, não surpreende o papel que a misericórdia tem no regular magistério do Papa Francisco e na sua proclamação do Ano Santo da Misericórdia. É certo que a misericórdia está no âmago da revelação bíblica, porque também pertence intimamente ao coração do nosso Deus trino. Numa perspectiva teológica e antropológica, São Tomás de Aquino qualifica a misericórdia para com o próximo necessitado como a mais elevada virtude humana (cfr. “Summa Theologiae”, II-II, q. 30, a. 4), chamando a atenção para o facto de a misericórdia ter tanto uma componente afectiva como uma efectiva.

O Ano Santo da Misericórdia começará a 8 de Dezembro, data esta escolhida “por ter uma grande importância na mais recente História da Igreja” (“Misericordiae Vultus”, nº 4). E começará com a abertura da Porta Santa, “exactamente cin­quenta anos após o termo do Concílio Ecuménico Vaticano II” (ibidem), um concílio que se seguiu ao convite do Papa João XXIII para que se abrissem as janelas da Igreja e se deixasse por elas entrar o ar fresco do Espírito. Na “Evangelii Gaudium” lemos agora um novo convite papal a sermos uma Igreja aberta, pois “uma Igreja ‘a desabrochar’ é uma Igreja de portas abertas” (EG 46). Abrir o próprio coração e a própria vida é uma forma de manifestar misericórdia.

 

Misericórdia, ad intra

A Constituição Dogmática sobre a Igreja do Concílio, “Lumen Gentium”, declara firmemente:

“Cristo foi enviado pelo Pai a anunciar aos pobres a Boa Nova, (…) a curar os contritos de coração (Lc 4,18) (…)
e a procurar e salvar o que estava perdido (Lc 19,10). De igual modo, a Igreja envolve com o seu amor todos os que estão aflitos pela debilidade humana, pois ela reconhece nos pobres e nos sofredores a imagem Daquele que a fundou e que foi, Ele mesmo, pobre e sofredor, procura aliviar as suas necessidades e intenta, neles, servir a Cristo.” (LG 8)

Este critério é o fio condutor para a posição e o com­portamento da Igreja num conjunto de situações. Como nos recorda a Bula de Proclamação, a Igreja é chamada a oferecer um “oásis de misericórdia”; e não só a Igreja em geral, mas nas “nossas paróquias, comunidades, associações e movimentos, isto é, em todo o lado onde haja cristãos” (MV 12).

Eis dois exemplos de como este princípio pode ser posto em prática – ambos exigentes e importantes. O primeiro refere-se ao aborto. Como entretanto foi divulgado, o Papa Francisco decidiu “no Ano do Jubileu conceder a todos os padres o poder de absolver do pecado do aborto toda aquela que o tiver praticado e que, de coração, dele se arrependa e peça perdão” (Carta ao Arcebispo Rino Fisichella, de 1 de Setembro de 2015)4. Naturalmente, isto não nega a tragédia “profundamente injusta” que é o aborto, mas os padres – con­tinua o Papa – devem “saber conjugar palavras de autêntico acolhimento com uma reflexão que ajude a compreender o pecado cometido. Do mesmo modo, devem indicar um cami­nho de verdadeira conversão, para poder entender o genuíno e generoso perdão do Pai, em cuja presença tudo se renova”5. O amor de Deus não é severo, nem permissivo. E também assim deve ser a misericórdia praticada pela Igreja.

O mesmo se diga no segundo exemplo, relativo à com­plexa realidade das famílias, com os seus fracassos, sofrimen­tos, rupturas e impasses. A Igreja – como Mãe – reconhece a necessidade de uma assistência espiritual misericordiosa em diversas situações, tais como a dos casais casados civilmente ou em união de facto, das famílias desfeitas, incluindo os casos de monoparentalidade, das pessoas que se separaram ou se divorciaram – recasadas ou não, e bem assim daquelas que têm uma orientação homossexual. A misericórdia divina tem de ser realizada na Igreja de Cristo e para que seja demons­trada a “caritas in veritate” de forma concreta e convincente às pessoas que vivam estas situações.

 

Misericórdia, ad extra

Enquanto a “Lumen Gentium” se debruça sobre a Igreja em si e em certa medida olha para dentro, existe um outro extraor­dinário documento conciliar, a Constituição Pastoral “Gaudium et Spes”, que orienta a atenção da Igreja para o mundo, por­tanto que a direcciona para fora. A misericórdia integra a mais íntima identidade da Igreja, as suas circunstâncias e a sua vida. Todavia, a misericórdia é também o fulcro da acção missio­nária da Igreja, porquanto toda a realidade humana e toda a sociedade são conduzidas pelo e para o coração de Deus:

“O Senhor é o destino da História da Humanidade, o ponto para o qual convergem todos os esforços da história e da cultura, o centro da humanidade, a alegria de todos os corações e a realização dos seus anseios.” (GS 45)

As tão citadas palavras iniciais da “Gaudium et Spes” estão inscritas na nossa memória e no nosso coração:

“A alegria e a esperança, a tristeza e a angústia dos homens de hoje, sobretudo pobres e sofredores, são também a alegria e a esperança, a tristeza e a angústia dos discípulos de Cristo. E não há realidade verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração.” (GS 1)

Como pode esta mensagem ser anunciada no mundo actual? Poderíamos encontrar o seu eco num enorme conjunto de situações difíceis, sobretudo na “cultura de marginalização” em que hoje vivemos e haveria, certamente, muitos aspectos a considerar, mas, para não nos alongarmos, abordaremos especialmente apenas um deles.

Este editorial é publicado por algumas revistas jesuítas europeias. Ora, é evidente que a Europa actualmente debate--se com algumas crises – uma crise de refugiados, uma crise humanitária, uma crise política. E o que significa a miseri­córdia nestas circunstâncias? Em diversas ocasiões, o próprio Papa focalizou alguns tópicos da questão, designadamente na sua Mensagem de 12 de Setembro de 2015 para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, em que propôs a misericórdia como resposta a este exigente desafio. Sendo sinceros con­nosco e com a realidade, teremos de reconhecer que 

“o evangelho da misericórdia desperta hoje a cons­ciência dos homens, evita que nos acomodemos ao sofri­mento do outro e aponta possíveis respostas que têm as suas raízes nas virtudes teologais da fé, esperança e caridade e que se exprimem nas obras de misericórdia espirituais e corporais.”

Como poderemos então enfrentar a actual crise dos refu­giados à luz do Evangelho?

Por um lado, há que reconhecer a pronta e generosa res­posta dum número considerável de pessoas, famílias, comuni­dades e movimentos de cidadania da sociedade civil. A soli­dariedade nasce dum coração misericordioso. Em vez de agir por medo ou por interesses pessoais, a maioria das sociedades europeias agiu levada pelo coração, trazendo assim à luz as suas raízes cristãs, por vezes ignoradas ou mesmo rejeitadas. Por outro lado, temos de dizer que esta resposta pessoal, embora tão necessária, não é suficiente. O amor cristão ao próximo tem uma dimensão política e a misericórdia também tem de ser concretizada pela legislação. Sobretudo quando se trata de refugiados, como é o caso, é de aplicar o Direito Internacional, atendendo aos efeitos vinculativos que as con­venções têm para os Estados. Cuidar de seres humanos que fogem da guerra não é uma decisão discricionária de políticos individuais, é uma exigência do Direito Internacional e dos direitos humanos. Finalmente, é de sublinhar que os planos de emergência humanitária não podem substituir programas de integração de longo prazo nos países de acolhimento e esfor­ços sérios para que se alcancem acordos de paz que ponham termo às guerras nos países de origem.

 

Conclusão

A “Misericordiae Vultus” é um convite a ser misericordioso “como o Pai”. Tal como o pai, na parábola do Evangelho de Lucas, permanentemente procurava o filho com os olhos (cfr. Lc 15,20), somos instados a olhar para os nossos irmãos e irmãs e a dar atenção às suas situações e carências, a descobrir os seus rostos e neles reconhecer uma humanidade comum. Como sublinhou o filósofo franco-lituano Emmanuel Lévinas, o rosto do outro (vultus) cria em nós uma obrigação ética: “ao interpelar-me, o rosto exige-me uma relação” – “O rosto dá início ao diálogo espontâneo, cuja primeira palavra é de compromisso”6. Pela perspectiva ética e cristã, respondemos a este chamamento na medida em que acudirmos ao outro na sua carência. Como evidenciou Santo Inácio de Loyola, “o amor deve pôr-se mais nas obras que nas palavras” (Exercícios Espirituais 230). As obras de misericórdia são a nossa resposta ao grito do nosso mundo ferido.

 

in Brotéria, Volume 181, n.º 4 (Novembro), 2015, pp. 327-332.


 

(Traduzido do alemão por Alecky von Bohm-Amolly, a quem agradecemos)


1 Cfr. Cardeal Walter Kasper, Misericórdia. Con­dição Fundamental do Evangelho e Chave da Vida Cristã.
2 Antonio Spadaro, A Entrevista ao Papa Fran­cisco, Revista Brotéria, Vol. 177, nº 2/3 (Agosto/Setem­bro), 2013.
3 Ibidem.
4 Cit. de w2.vatican.va/content/francesco/de/let­ters/2015/documents/papa-francesco_20150901_let­tera-indulgenza-giubi­leo-misericordia.html (Fisichella é o Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização).
5 Cit. de w2.vatican.va/content/francesco/de/messages/migration/documents/papa-fran­cesco_20150912_world-migrants-day-2016.html. 
6 Emmanuel Lévinas, Totalidade e Infinito.