Revista Brotéria

  
DEZEMBRO 2015 - Vocação e Missão da Família - XIV Sínodo ordinário dos Bispos PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Antonio Spadaro, sj *   

Artigo 2015-12 - Vocação e Missão da Família AS

Abrindo a XIV Assembleia ordinária do Sínodo dos Bispos, o Papa Francisco recordou que os padres sinodais se prepara­vam para «recomeçar o diálogo» iniciado com a III Assembleia extraordinária (5-19 outubro 2014)1. E prosseguiu: «O Sínodo, como sabemos, é um caminho a fazer em conjunto com espírito de colegialidade e de sinodalidade, adoptando corajosamente a parresia, o zelo pastoral e doutrinal, a sabedoria, a franqueza, e pondo sempre à frente dos nossos olhos o bem da Igreja, das famílias e a suprema lex, a salus animarum»2, a salvação das almas. O trabalho do Sínodo ordinário demorou três semanas, de 4 a 25 de outubro 2015 - envolveu 270 padres diocesanos, 14 delegados fraternos, 51 entre auditores e auditoras, dos quais 17 casais e 17 solteiros. As intervenções dos Padres sinodais na Aula foram subdivididas em três etapas, correspondendo às partes do Instrumentum laboris composto a partir das con­clusões do Sínodo precedente, integradas por uma síntese das respostas a um outro questionário, publicado a 9 de dezembro de 2014.3

 

«Deve-se caminhar juntos» (em conjunto)

A XIV Assembleia ordinária do Sínodo dos Bispos aconteceu 50 anos depois da instituição do Sínodo pelo Papa Paulo VI. O aniversário foi celebrado dia 17 de outubro com um evento específico, no qual o cardeal Schönborn fez um registo come­morativo e o Santo Padre discursou. Na mente do Pontífice, o Sínodo é um «processo» que deverá cada vez mais plasmar a vida da Igreja4, assim é o que «Deus espera da Igreja do terceiro milénio»5, porque «Igreja e Sínodo são sinónimos»6. A colegiali­dade episcopal deve viver no interior de uma Igreja totalmente sinodal. O Papa Francisco já o tinha anunciado claramente na entrevista que tinha concedido à Civiltà Cattolica, realizada apenas cinco meses após a sua eleição, com estas palavras: «Devemos caminhar juntos: as pessoas, os bispos e o Papa. A sinodalidade é vivida a vários níveis. Talvez seja tempo de mudar a metodologia do Sínodo, porque a atual parece-me estática»7

O facto de o processo sinodal ter começado com um ques­tionário manifesta um conteúdo de valor fundamental. De facto, como sempre disse o Sumo Pontífice, «o sensus fidei impede de separar rigidamente a Ecclesia docens da Ecclesia discens, já que também o Rebanho tem um próprio “faro” para discernir as novas estradas que o Senhor abre à Igreja». Foi esta convicção - prosseguiu Francisco - «a guiar-me quando tive o desejo que o Povo de Deus fosse consultado na preparação do duplo encon­tro sinodal sobre a família». De facto, «como seria possível falar da família sem interpelar as famílias, ouvindo as suas alegrias e as suas esperanças, as suas dores e as suas angústias?»8.

 

Sinodalidade e diversidade

A sinodalidade implica a diversidade. Isto é verdade hoje mais que nunca. Entrando na Aula sinodal, os Padres tiveram a impressão de um corpo vivo, capaz de refletir de maneira real, que se confronta com problemas, linguagens e modos de afrontar a realidade muito diversos. O Homem na sua concre­tude e diversidade não é um elemento estranho à pregação do Evangelho. Então, esta dimensão de relação com a realidade, com a experiência real, é fundamental e pode criar divergências. Concretamente, uma boa solução para a Nova Zelândia não o será para a Lituânia, uma aproximação válida na Alemanha não o será para a Guiné.

Assim, «para além das questões dogmáticas bem defini­das pelo Magistério da Igreja», o próprio Pontífice constatou, no seu discurso conclusivo do Sínodo, como é evidente «que o que parece normal para o bispo de um continente, possa parecer estranho, quase escandaloso - quase! - para um bispo de outro continente; o que é considerado uma violação de um direito numa sociedade, pode ser um preceito óbvio e intan­gível noutra; o que para alguns é liberdade de consciência, para outros pode ser só confusão». Então percebe-se como a catolicidade não é de todo «globalização». E percebe-se como a universalidade da Igreja não massifique e não signifique uni­formidade.9

 

A franqueza (parresia) e o primado

A «dinâmica da sinodalidade»10 exige a plena liberdade de pala­vra e de expressão até das diferenças até aqui descritas. Na sua saudação no início do Sínodo extraordinário, o Papa afirmou com decisão: «Peço-vos, por favor, estas atitudes de irmãos do Senhor: falar com parresia e ouvir com humildade». Na introdução ao Sínodo ordinário repetiu o mesmo apelo. Este é portanto outro desafio à misericórdia interna da Igreja: falar-se claramente, ouvir-se pacientemente, dialogar demoradamente. Neste sentido a Relatio Synodi, fruto deste encontro, não é o resultado de um compromisso, mas sim o que os padres sino­dais conseguiram escrever juntos, atravessando diferenças de todo o tipo.

Esta dinâmica de confronto real não é de facto «confusão», mas «liberdade»: dois termos que não se devem nunca assimi­lar, sob pena de não se viver uma plena maturidade adulta. De resto, «discussões acesas, até litígios, e discutir intensamente fazem naturalmente parte do caminho do Sínodo»11. O con­flito pode mesmo tornar-se «um anel de ligação de um novo processo» (EG 227). É preciso em vez de isso recordar - como fez o cardeal Schönborn na sua exposição comemorativa durante o quinquagésimo aniversário da instituição do Sínodo - o clima do chamado «Concílio de Jerusalém»: os Atos dos Apóstolos não temem em registar «uma grande discussão (Act 15,7) entre os apóstolos e anciãos da Igreja de Jerusalém, que se segue a uma outra «controvérsia» na qual «Paulo e Barnabé tiveram uma acirrada divergência» (Act 15,2) contra outros irmãos vindos da Judeia, sobre a questão da circuncisão. E recordemos que é Paulo a opor-se a Cefas (Pedro) «cara a cara» (Gal 2,11).

Francisco pôs mesmo no seu ministério petrino o funda­mento da serenidade de consciência ao dizer o que se pensa. Como tinha especificado na conclusão da III Assembleia extraor­dinária, «o Sínodo realiza-se sempre cum Petro et sub Petro, e a presença do Papa é garantia para todos e guarda da fé». O seu ministério é garantia de comunhão: «O facto de o Sínodo agir sempre cum Petro et sub Petro - portanto não só cum Petro, mas também sub Petro - não é uma limitação da liberdade, mas uma garantia da unidade»12. Assim, não se pode entender Pedro, restritivamente, como «barreira» à palavra e ao pensamento dentro da Igreja, mas ao contrário como a «rocha» sólida que torna possível a expressão, porque é ele, e não outros, que é a «garantia da conformidade da Igreja à vontade de Deus, ao Evangelho de Cristo e à Tradição da Igreja».
É interessante notar como Francisco fala do significado do primado “petrino” no contexto da sinodalidade, exprimindo a persuasão que «numa Igreja sinodal, também o exercício do primado petrino pode receber maior luz. O Papa não está, sozinho, acima da Igreja, mas dentro desta como Baptizado entre os Baptizados, e dentro do Colégio episcopal como Bispo entre os Bispos, chamado - como sucessor do apóstolo Pedro - a guiar a Igreja de Roma que preside no amor a todas as Igrejas»13. A sua constante presença na Aula foi, além disso, a expressão mais evidente, e muito mais que simplesmente simbólica, da sinodalidade da Igreja.

 

Diálogo e discernimento

O Papa Francisco quis um Sínodo mais dinâmico na «disputa» e renovou por isso a sua metodologia. O objectivo foi tornar mais ágil, dinâmico e eficaz o desenvolvimento dos trabalhos, valori­zando sobretudo os Circuli minores, nos quais o número limi­tado de participantes e a homogeneidade linguística permitiram o diálogo prolongado e franco, a partilha de ideias, a maturação do consenso. Assim, às 54 horas de trabalho em Assembleia, em 18 Congregações gerais, corresponderam 36 horas de trabalho em 13 sessões de círculos menores14.

Outro elemento importante da metodologia foi a confir­mação de que as intervenções na Aula não seriam divulgadas e publicadas por fontes oficiais nem outras15. Esta modalidade permitiu a cada padre ser livre de se exprimir, sem a pressão do pensamento de ser apresentado ao «público» através de resu­mos. Não faltou uma infracção interna ao regulamento, mas foi interessante ver como essa foi notada pelos restantes como uma violação indevida e incorrecta.

Mas o motivo profundo da decisão de manter os interve­nientes protegidos das interferências externas foi o de criar «um espaço protegido onde a Igreja experimenta a acção do Espírito Santo», como disse o Santo Padre na sua intervenção inicial: «Gostaria de recordar que o Sínodo não é uma convenção ou um “salão”, não é um parlamento ou um senado, onde se chega a um acordo. A correção do procedimento sinodal não prevê nem tão pouco uma convergência total, fruto de um balan­ceamento quietista, moderado, mas falso». Portanto, como o Papa já tinha dito no ano passado, «as Assembleias sinodais não servem para discutir ideias bonitas e originais, ou para ver quem é mais inteligente… Servem para cultivar e manter melhor a vinha do Senhor, para cooperar no seu sonho, no seu projecto de amor ao seu povo»16.

O Sínodo é uma expressão eclesial, não política ou mediá­tica. Neste sentido, a reserva foi a mesma de qualquer exercício espiritual de discernimento comunitário. O objectivo era de viver um acontecimento de alto valor espiritual sem «temer as discussões, e vivê-las como aquele “movimento dos espíritos” que faz maturar o discernimento dos espíritos e prepara os corações para reconhecer aquilo que o Senhor mesmo nos mostra, sim, aquilo que ele já decidiu (cf. Act 15,7), aquilo que nós, no entanto, mediante a oração e os esforços das nossas discussões, temos de reconhecer»17.

No final do Sínodo extraordinário – recordemos - o Papa tinha claramente afirmado que se teria «preocupado muito e entristecido se não tivesse havido estas tentações e estas anima­das discussões», ou seja, «se todos tivessem estado de acordo ou taciturnos numa paz falsa e quietista»18.

 

Oito nós críticos

A discussão aberta pôs em relevo alguns nós críticos que, sem dúvida alguma ajudarão a Igreja a interrogar-se sobre o seu caminho futuro:

1) Um nó interessante foi uma certa sobreposição entre «doutrina» e «teologia». Algumas posições teológicas foram interpretadas em algumas situações como pontos da doutrina. Enquanto a doutrina não se reduz a uma posição teológica. De um modo geral, percebeu-se que a reflexão teológica recente não tenha entrado muito no debate. É claro que o Sínodo não tem como intenção debates teológicos, e no entanto foi claro que a meditação dos pastores poderia ser melhor plasmada por uma reflexão teológica. A distância entre academia e pastoral deve ser colmatada para evitar que as duas dimensões proce­dam de maneira independente.

Nisto, o exemplo de Francisco é paradigmático, porque a sua sofisticação teológica exprime-se de tal modo que aparece como franca sensibilidade pastoral. E nos seus discursos ao Sínodo tivemos uma ampla prova. Não se trata de uma dissi­mulação, mas da forma de discurso teológico mais adaptada à missão e à reforma. É por isso necessário sobretudo reconhecer no princípio pastoral a medida da inteligência do Evangelho. E o intenso debate teológico deve ser compreendido como um ganho para o «desenvolvimento orgânico» da doutrina da Igreja e da verdade do Evangelho19.

2) Um segundo nó crítico é aquele que se refere ao sig­nificado da doutrina. Já no fim do Sínodo de 2014, o Pontífice tinha falado da tentação de «transformar o pão em pedra e atirá-la contra os pecadores, os frágeis e os doentes (cf. Jo 8,7), ou seja, de transformá-lo em “pesos insuportáveis” (Lc 11,46)». A doutrina é pão, não pedra. No fim do Sínodo ordinário o Papa repetiu esta imagem, dizendo que isto «testemunhou a todos que o Evangelho permanece para a Igreja a fonte viva da eterna novidade, contra quem quer “endoutriná-lo” em pedras mortas para atirar contra os outros».

A doutrina - como foi reafirmado em alguns círculos menores - é o ensinamento de Cristo, é o próprio Evangelho. Por isso não tem nada a ver com aqueles «corações fechados que frequentemente se escondem até atrás dos ensinamentos da Igreja, ou de boas intenções, para sentar-se na cátedra de Moisés e julgar algumas vezes, com superioridade e superfi­cialidade, os casos difíceis e as famílias feridas», acrescentou ainda Francisco. A obediência à Tradição não pode nem deve ser confundida com a obediência à letra. E cresce-se sempre na mais profunda compreensão da doutrina do Evangelho, que é sempre ordenada à salvação.

3) Um terceiro nó crítico foi o de pensar que um evento eclesial como o Sínodo pudesse servir apenas para repetir o que já foi dito. Nesse sentido ecoaram aqui e ali as palavras de S. João XXIII, que na Gaudet Mater Ecclesia disse: «Mas nós não devemos somente guardar este precioso tesouro, como se nos preocupássemos unicamente pela sua antiguidade, mas dedicar-nos com diligente vontade e sem temor a esta obra, que a nossa época exige, prosseguindo o caminho que a Igreja percorreu durante quase vinte séculos». O espírito do Sínodo, neste sentido – e também na sua própria essência que é consultiva – foi o mesmo que o do Concílio, nas palavras do Papa que iniciou o Vaticano II: «Atualmente é necessário que neste nosso tempo todo o ensinamento cristão seja por todos alvo de um novo exame, de ânimo sereno e calmo, sem vos tirar nada.»

A chave de leitura do trabalho sinodal foi dada pelo pró­prio Pontífice no momento em que introduziu os trabalhos: «É a Igreja que se interroga sobre a sua fidelidade ao depósito da fé, que por si não representa um museu a guardar nem apenas salvaguardar, mas é uma fonte viva na qual a Igreja vai matar a sede para matar a sede e iluminar o depósito da vida»20. Na sua homilia da manhã de 23 de Outubro - isto é, na véspera da votação na Aula da Relatio Synodi – em Santa Marta, o Pontífice afirmou: «Os tempos mudam e nós cristãos devemos mudar continuamente. Devemos mudar fundados na fé em Jesus Cristo, fundados na verdade do Evangelho, mas a nossa atitude deve mover-se continuamente de acordo com os sinais dos tempos». Este sinal – dado no início e no final do Sínodo – ao dinamismo de acordo com os tempos, pelo qual o depósito da fé sacia e ilumina o depósito da vida, constitui um elemento importante para a compreensão do processo que o Pontífice começou.

4) É claro que um nó chave da discussão foi o modelo de relação entre a Igreja e o mundo. É interessante notar as cita­ções da Gaudium et spes presentes na Relatio Synodi. De facto, este objectivo foi alcançado não sem um longo processo. Para alguns padres, a Igreja é rodeada por um mundo hostil e demo­níaco do qual é necessário defender-se e necessário atacar com a proclamação da doutrina. Outros, ao contrário, afirmaram que a tarefa da Igreja é de discernir como Deus está presente no mundo e como prosseguirá a sua obra. Por outro lado, não podemos viver sonhando um mundo que já não existe, nem cair no «complexo de Masada», isto é, no complexo de cerco. Isto corre o risco de ser ausência da fé em Deus que age na história. Portanto, a pergunta fascinante que surgiu de todos os padres – mesmo com diferentes respostas – foi: «Como pôr-se de maneira evangélica em frente a estes desafios abertos?».

5) Um quinto nó crítico que se pode assinalar está diretamente ligado ao tema do Sínodo. Este foi o de recon­duzir demasiado frequentemente o tema da família ao do matrimónio. Alguém, por isso, recordou que existem famílias que incluem avós, famílias de avós e netos sem pais, famílias separadas por migrações, mas também as «famílias religiosas» e outras formas de convivência, mesmo comunitária, que são consideradas.

6) Um sexto nó crítico foi o de andar à procura de uma certa exaustividade tanto na exposição da doutrina como no enfrentar os problemas. O próprio Pontífice, no seu discurso de conclusão dos trabalhos, afirmou que o Sínodo não «concluiu todos os temas inerentes à família», mas «procurou iluminá-los com a luz do Evangelho, da Tradição e da história bimilenária da Igreja, infundindo neles a alegria da esperança, sem cair na repetição fácil do que é indiscutível ou do que já foi dito». Assim, até o Sínodo não «encontrou soluções exaustivas a todas as dificuldades e dúvidas», mas pelo menos «enfrentou-as sem medo e sem esconder a cabeça na areia».

7) Um sétimo nó crítico que pode ser referido tem a ver com a franqueza ou «parresia» e a sua aplicação aos traba­lhos e ao ambiente sinodal. Por duas vezes o Papa Francisco pediu para «superar todas as hermenêuticas conspirativas que são sociologicamente débeis e espiritualmente não ajudam». E isto porque, como ele mesmo constatou, «as opiniões expri­mem-se livremente» mas «por vezes com métodos nada bene­volentes». O grupo alemão manifestou também uma «grande perturbação e tristeza» pelas «declarações públicas de alguns padres sinodais sobre pessoas, conteúdos e atuação do Sínodo. Isto contradiz o espírito do encontro, o espírito do Sínodo e as suas regras elementares. As imagens e comparações usadas são não só indiferenciadas e erradas, mas também ofensivas». Os seus membros - e com eles muitos outros – unanimemente tomaram as suas distâncias. O Sínodo não foi assim livre de quedas de estilo, nem de tentativas de pressões entre o exterior e interior da Aula – antes do seu início e durante o seu decorrer -, alguns dos quais encontraram nos media um local para se manifestar.

8) Um último nó crítico que propomos nestas páginas foi o forte desejo de não se limitar à linguagem normativa ou de condenação, mas usar a linguagem propositiva e aberta pró­pria do Concílio, valorizando uma aproximação pastoral à luz do estilo do Papa Francisco. O círculo menor alemão também afirmou claramente na Aula: «O nosso modo de pensar é dema­siado estático e demasiado biográfico e histórico». A linguagem não é simples exterior, mas comunica o coração pulsante de uma Igreja evangelizadora e pastoral e não só capaz de falar a si mesma e de si mesma. O Pontífice, no seu discurso no fim do Sínodo, falou de «transmitir a beleza da Novidade cristã, às vezes coberta da ferrugem de uma linguagem arcaica ou sim­plesmente incompreensível».

 

O comboio, a porta, a tocha e o navegador

A riqueza do trabalho sinodal não é sintetizável facilmente, tanto porque os intervenientes na Aula foram muito nume­rosos e diferentes entre eles, como porque os trabalhos dos grupos tocaram todas as áreas do Instrumentum laboris. Não é nossa intenção fazer aqui sínteses precárias. Contudo, pode ser útil notar como no debate sinodal não faltaram as imagens. Podemos mencionar aqui pelo menos quatro: o comboio, a porta fechada, a tocha e o navegador por satélite. Todas trans­postas, pelo menos no seu significado, pelo Pontífice nos seus discursos.

O comboio foi evocado para dizer que a Igreja não deve ser como um comboio em marcha, que viaja veloz pelo mundo como uma flecha, mas do qual é impossível prestar atenção ao panorama que nos rodeia. Notamos que na sua homilia da Missa para a conclusão do Sínodo, o Papa recuperou o sentido profundo desta imagem. Diante do cego Bartimeu, de facto, «nenhum dos discípulos pára, como o fez Jesus. Continuam a caminhar, vão em frente como se nada fosse. Se Bartimeu é cego, eles são surdos: o problema dele não é problema deles. Pode ser o nosso risco: em frente aos problemas contínuos, é melhor ir em frente, sem se deixar perturbar. Deste modo, como aqueles discípulos, estamos com Jesus, mas não pensa­mos como Jesus. Está-se no seu grupo, mas fecha-se a abertura de coração, perdem-se a maravilha, a gratidão e o entusiasmo, e arrisca-se a tornar-se “criatura de hábito da graça”. Podemos falar d’Ele e trabalhar para Ele, mas viver longe do seu coração, que se protege perante quem é ferido. Podemos caminhar atra­vés dos desertos da humanidade sem ver aquilo que realmente acontece, mas aquilo que gostaríamos de ver; somos capazes de constituir visões do mundo, mas não aceitamos aquilo que o Senhor nos põe em frente dos olhos. Uma fé que não sabe enraizar-se na vida das pessoas permanece árida e, em vez de oásis, cria outros desertos».

A porta foi evocada por alguns como «fechada» ou por fechar definitivamente, como no caso da Eucaristia para os divorciados recasados pelo civil; por outros como «aberta» ou por abrir pelos motivos opostos, e falando em termos gerais, como atitude pastoral fundamental. Um padre falou também de uma «porta da frente» e de uma «porta das traseiras» (a primeira entreaberta e a segunda para fechar). Outros expressaram pro­funda desolação ao ouvir falar, mesmo que apenas metaforica­mente, de Igreja «de portas fechadas». O Pontífice tinha usado a imagem da porta na Missa de abertura do Sínodo, estimulando a Igreja a «ser hospital de campanha, com as portas abertas a acolher qualquer um que bate, pedindo ajuda e sustento; mais, a sair do próprio recinto em direção aos outros com amor ver­dadeiro, para caminhar com a humanidade ferida, para incluí-la e conduzi-la à fonte da salvação».

A tocha – recuperada do Sínodo extraordinário – é a imagem do Evangelho levado «para o meio da gente para ilumi­nar aqueles que perderam a rota» (Relatio Synodi, n. 55). Esta tocha dá o sentido de acompanhamento (o caminhar juntos) e de discernimento da Igreja. O próprio Pontífice usou a imagem da chama no seu discurso final, afirmando que o Sínodo «procurou olhar e ler a realidade, ou antes as realidades, de hoje com os olhos de Deus, para acender e iluminar com a chama da fé o coração dos homens».

O navegador por satélite (GPS) indica que estrada escolher para chegar à meta. Se nos enganamos ou encontramos uma interrupção, o GPS não pede para voltar ao ponto de partida e refazer do princípio todo o caminho, mas propõe um itinerário alternativo. Analogamente, cada vez que nos desviamos por causa do nosso pecado, Deus não nos pede para voltar ao nosso ponto de partida, mas reorienta-nos para si traçando um novo percurso. Também o Papa, na homilia da Missa de conclusão do Sínodo, falou de «uma via acessível, uma via de consolação» aberta por Deus, que é Pai e «toma conta dos seus filhos, acompanha-os no caminho» apoiando também o coxo.

É interessante o facto que contudo as imagens evoquem um caminho, um itinerário, uma possibilidade (pelo menos) de ingresso. Em frente ao caminho o Papa – sempre na Missa conclusiva do Sínodo – advertiu os pastores de uma tentação, a de cair numa «fé de tabela»: «Podemos caminhar com o povo de Deus, mas temos já a nossa tabela de marcha, onde tudo encaixa: sabemos onde ir e quanto tempo demorar; todos devem respeitar os nossos ritmos, e cada inconveniente perturba-nos».

 

A Igreja à escuta da família

A relação final da XIV Assembleia ordinária do Sínodo aprovou com maioria qualificada (isto é, com 2/3 dos placet) todos os pontos propostos na formulação, que por sua vez havia sido aprovada por unanimidade pela Comissão que a produziu21. Esta é composta por três partes.


A primeira parte diz respeito «À Igreja à escuta da família» e representa o fruto de uma reflexão de olhos abertos da família «real» no contexto antropológico, cultural, social e económico.

O documento abre os olhos também sobre os membros de uma família, considerando as fases críticas de uma vida (infância, terceira idade, pessoas incapacitadas, migrantes...), as dinâmicas afetivas e emocionais e os temas ligados à vida. Enquanto con­frontada com situações complexas e com desafios, a Igreja está consciente que precisa de «conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas expectativas, as suas aspirações e o seu carácter frequentemente dramático (GS 4)» (n. 5).

Reconhece-se que a cultura de hoje abriu «novos espa­ços, novas liberdades e novas profundidades». Por outro lado, encontra-se uma tendência perigosa para o individualismo (n. 8) e lamenta-se a fuga das instituições (n. 10) frente à família entendida como recurso da sociedade. Destaca-se positiva­mente a opção de falar especificamente das famílias de migran­tes e de refugiados (n. 23). E assim também o parágrafo dedi­cado às pessoas não casadas (n. 22) que frequentemente fazem grandes serviços na sua vida de relação, profissional e eclesial.
A primeira parte fecha com um parágrafo, dos mais impor­tantes do documento e que constitui toda a Relatio. Lê-se: «É necessário acolher as pessoas com compreensão e sensibilidade na sua existência concreta, e saber apoiá-las na busca do sentido. A fé encoraja o desejo de Deus e a vontade de sentir-se plenamente parte da Igreja, mesmo naqueles que experimen­taram o falhanço ou se encontram em situações mais difíceis. A mensagem cristã tem sempre em si a realidade e a dinâmica da misericórdia e da verdade, que em Cristo convergem». Aqui se expressa em síntese o olhar da Igreja. E de seguida fala-se da «pluralidade de situações concretas», de «percursos», de «acom­panhamento», de «atenção pastoral», de «compreensão» e do facto que «na óptica da fé não há excluídos».

 

A família no plano de Deus

A segunda parte da Relatio Synodi é dedicada «à família no plano de Deus». Reconhece-se na Palavra de Deus a «bússola» que orienta na compreensão cristã, e por isso pomo-nos «à escuta daquilo que a Igreja ensina sobre a família à luz da Sagrada Escritura e da Tradição. Estamos convencidos que esta Palavra responde às expectativas humanas mais profundas de amor, verdade e misericórdia, e desperte potencialidade de dom e acolhimento mesmo nos corações despedaçados e humi­lhados» (n. 35). O texto expõe em síntese a doutrina cristã sobre o matrimónio e a sua indissolubilidade, considerando também «analogia imperfeita» entre o casal marido-mulher e Cristo-Igreja.

A Igreja reconhece «que entre os batizados não há outro vínculo nupcial para além do sacramental» e ao mesmo tempo está bem «consciente da fragilidade de muitos dos seus filhos que lutam no caminho da fé» (n. 51). A Igreja não impõe ideais, mas acompanha no caminho. Pois, «frente a situações difíceis e a famílias feridas, é necessário sempre recordar um princípio geral: “Saibam os pastores que, por amor à verdade, somos obri­gados a discernir bem as situações” (Familiaris Consortio, n. 84). O grau de responsabilidade não é igual em todos os casos, e podem existir fatores que limitam a capacidade de decisão» (ibidem).

A partir deste ponto, que está no centro do documento, afirma-se que «enquanto a doutrina é expressa com clareza, devem evitar-se juízos que não têm em conta a complexidade das diversas situações, e é necessário estar atento ao modo como as pessoas vivem e sofrem, devido às suas condições» (ibidem).

Nos números 53-55 desdobram-se as vísceras da misericór­dia da Igreja, que sente o dever de «acompanhar os seus filhos mais frágeis, marcados de amor ferido e perdido, devolvendo confiança e esperança, como a luz do farol de um porto ou uma tocha levada no meio das pessoas para iluminar aqueles que se perderam no caminho ou se encontram no meio da tempes­tade» (n. 55).

 

A missão da família

A terceira parte da Relatio Synodi é dedicada à “missão da famí­lia”. Trata-se de uma secção importante do documento, porque enquadra a família não como “objecto” de evangelização, mas como “sujeito”, ou seja, no seu papel activo22. Aqui abordam-se os temas da preparação para o matrimónio, dos primeiros anos da vida familiar, da responsabilidade geradora no seu sentido mais amplo, da educação dos filhos, da espiritualidade familiar e da abertura para a missão. E é nesta parte que se aborda o tema do acompanhamento pastoral e das situações complexas.

A instância fundamental dos parágrafos desta parte é a que põe a vida da família como um desafio actual, belo, capaz de dar sentido a uma vida humana. O matrimónio não é um “jugo”, mas local onde a humanidade se abre a uma vida rica de sentido. Isso não é antes de mais um espaço existencial de normas, deveres e preceitos exteriores, mas uma experiência de vida que põe em actividade a afectividade, a responsabilidade, a consciência. A tal ponto que alguns padres perguntaram se seria possível usar uma palavra mais positiva para “indissolubilidade”, mantendo o mesmo significado.

É admirável o modo atento, delicado e respeitoso como se fala da responsabilidade geradora. Com a Encíclica Humanae Vitae e a Exortação apostólica Familiaris Consortio apela-se a revigorar a “disponibilidade para procriar em contraste com uma mentalidade mesmo hostil à vida”. E prossegue-se afir­mando que a “estrada certa para a planificação familiar é a de um diálogo consensual entre esposos, do respeito dos tempos e da consideração da dignidade do parceiro”. A escolha responsá­vel da parentalidade pressupõe a formação da consciência, que é “o núcleo mais secreto e o sacrário do homem, onde está a sós com Deus, cuja voz ressoa na intimidade” (GS 16).

 

Discernimento, acompanhamento, integração, reconciliação

O capítulo III da terceira parte da Relatio Synodi aborda o tema das situações complexas. A pergunta que acompanha o texto é clara: como é que a Igreja se deve posicionar face às famílias feridas e aos falhanços? A atitute fundamental aparece bem descrita nas quatro palavras usadas na Relatio Synodi: discerni­mento, acompanhamento, integração e reconciliação. O Sínodo entendeu “promover o discernimento pastoral” (n. 69), guiado pela atenção aos “elementos positivos presentes nas situações que não correspondem ainda ou já não” com a mensagem evan­gélica (n. 70).

Tem-se bem presente que a simples convivência “é muitas vezes escolhida por causa da mentalidade geral contrária às instituições e aos compromissos definitivos, mas também pela expectativa de uma segurança existencial (trabalho e salário fixo). Noutros países, as uniões de facto tornam-se mais numero­sas, não só pela rejeição dos valores da família e do matrimónio, mas também pelo facto do casamento ser visto como um luxo, dadas as condições sociais, e assim a miséria material leva a que se viva em união de facto”. Uma análise atenta ajuda a não consi­derar todos os casos como farinha do mesmo saco e a enfrentar cada situação de “maneira construtiva, tentando transformá-la em oportunidade de caminho de conversão em direcção à plenitude do matrimónio e da família à luz do Evangelho” (ibidem).

Neste contexto, afirma-se que a própria experiência do falhanço matrimonial, dolorosa para todos, “pode tornar-se ocasião de reflexão, conversão e de confiança em Deus: tomada consciência das próprias responsabilidades, cada um pode reen­contrar n’Ele confiança e esperança” (n. 79). Conscientes das injustiças que se somam às dores de falhar, os padres sinodais reafirmam a possibilidade de “um caminho que a graça torna possível. Daqui a necessidade de uma pastoral da conversão e da reconciliação” (n. 79), também para o bem dos filhos, que muitas vezes são as primeiras vítimas destas situações críticas. De resto, “o primeiro dever da Igreja não é o de distribuir con­denações ou anátemas, mas o de proclamar a misericórdia de Deus, o de chamar à conversão e de conduzir todos os homens à salvação do Senhor (cfr. Jo 12,44-50)”23. Francisco disse-o cla­ramente no seu discurso de conclusão do Sínodo: “A Igreja é a Igreja dos pobres em espírito e dos pecadores em busca do perdão e não só dos justos e dos santos, antes dos justos e dos santos quando se sentem pobres e pecadores”.

 

Os batizados divorciados e recasados civilmente

Sobre os batizados que se divorciaram e recasaram pelo civil afirma-se antes de mais que “devem ser mais integrados nas comunidades cristãs nas diversas maneiras possíveis”. A lógica que guia os números 84-86 do documento é a de integração, chave de um sólido acompanhamento pastoral. Mais uma vez a Igreja mostra-se mãe, dizendo aos divorciados recasados pelo civil para estarem conscientes da sua pertença ao “Corpo de Cristo que é a Igreja”, de serem “irmãos e irmãs”. Diz-se que “o Espírito Santo derrama os seus dons e carismas para o bem de todos”. A intenção, portanto, é a de afirmar que estas pessoas não perderam a sua vocação ao bem de todos, a sua missão na Igreja. A sua participação eclesial pode exprimir-se nos diversos serviços eclesiais, e é necessário “discernir quais as diversas formas de exclusão actualmente praticadas no âmbito litúrgico, pastoral, educativo e institucional que podem ser superadas” (n. 84). Para a comunidade cristã, cuidar destas pessoas “não é um enfraquecimento da sua própria fé e do testemunho da indis­solubilidade matrimonial: aliás a Igreja exprime neste cuidado a sua própria caridade” (ibidem).

A Relatio Synodi implementa o critério global expresso por São João Paulo II na Familiaris Consortio (n. 84): o “dis­cernir bem as situações”. De facto há diferenças “entre os que se esforçaram sinceramente para salvar o primeiro casamento e foram abandonados injustamente, e os que por sua grave culpa destruíram um matrimónio canonicamente válido” (n. 85). Mas há ainda os que contraíram uma segunda união tendo em vista a educação dos filhos, e estão subjectivamente certos, em cons­ciência que o matrimónio precedente, irreparavelmente des­truído, já não era válido (cfr. n. 84). O Sínodo afirma então que é obrigação dos sacerdotes “acompanhar as pessoas interessadas no caminho do discernimento segundo o ensinamento da Igreja e as orientações do Bispo”.

Este itinerário impõe um discernimento pastoral que faz referência à autoridade do Pastor, juiz e médico, que é antes de mais “ministro da divina misericórdia” (Mitis et Misericors Iesus). Neste sentido procede-se em linha com o recente motu proprio do Papa Francisco sobre a reforma do processo canónico para as causas de declaração de nulidade do matrimó­nio. E vê-se nesta referência aos Bispos uma linha de conduta importante de reforma por parte do Papa, que lhes atribui poderes pastorais maiores.

O documento prossegue sobre esta estrada do discer­nimento de cada caso sem pôr qualquer limite à integração como aparecia no passado. Exprime, além disso, que não se pode negar, em algumas circunstâncias, que a “imputabilidade e a responsabilidade de uma acção possa ser diminuída ou anulada” (CCC 1735) por causa de diversos condicionamentos. “Em consequência, o juízo sobre uma acção objectiva não deve levar a um juízo sobre a “imputabilidade subjectiva” (Conselho Pontífico para os textos legislativos, Declaração de 24 de Junho 2000, 2a)» (n. 85). Existe uma norma geral, mas “a responsabi­lidade a respeito de determinadas acções ou decisões não é a mesma em todos os casos”. Por isto, “o discernimento pastoral, mesmo tendo em conta a consciência honestamente formada das pessoas, deve encarregar-se destas situações. Também as consequências dos actos praticados não são necessariamente as mesmas em todos os casos” (ibidem).

A conclusão é que a Igreja toma consciência que não se pode mais falar de uma categoria abstrata de pessoas e trancar as práticas da integração dentro de uma regra geral e válida em todos casos. Não se afirma até onde pode chegar o processo de integração, mas também não se põem limites precisos e intrans­poníveis. De facto, “o percurso de acompanhamento e discerni­mento orienta estes fiéis à tomada de consciência da sua situação perante Deus” (n. 86). Este raciocínio põe como fundamento a acção da Igreja e do seu juízo a consciência pessoal (n. 63).

“Quando escuta a consciência moral, o homem prudente pode sentir Deus a falar” (CCC 1777); portanto, concretamente “o colóquio com o sacerdote, no foro interno - lê-se na Relatio Synodi - contribui para a formação de um julgamento correcto sobre o que dificulta a possibilidade de uma participação mais plena na vida da Igreja e sobre os passos que podem favore­cê-la e fazê-la crescer” (n. 86). Este discernimento é finalizado na “procura sincera da vontade de Deus”; é caracterizado pelo “desejo de chegar a uma resposta mais perfeita”; e é plasmado pelas “exigências de verdade e caridade do Evangelho propostas pela Igreja” e por condições tais como “humildade, discrição, amor à Igreja e ao seu ensinamento”.

O cardeal Schönborn, entrevistado pela nossa revista antes do Sínodo, tinha afirmado que existiam situações em que o sacerdote confessor, que conhece a pessoa no seu foro interno, pode chegar a dizer: “A sua situação é tal que em sua consciên­cia, e minha de pastor, vejo o vosso lugar na vida sacramental da Igreja”24. E o confessor pode afirmar isto mesmo considerando que as condições postas pela Familiaris Consortio, há 35 anos, como um passo em frente, ou seja uma concretização mais aberta e atenta, em comparação com os tempos passados, ao que é vivido pelas pessoas.

A tensão sobre a situação sacramental dos divorciados recasados pelo civil nasce da própria Familiaris Consortio que afirmava que estes: “Não se considerem separados da Igreja podendo, e mais, devendo, enquanto batizados, participar na sua vida” (n. 84). É um conceito que o Papa Francisco repetiu muitas vezes. Mas esta “abertura” põe um problema sério sobre o que é esta “comunhão eclesial” reconhecida. Como é possível ser uma verdadeira comunhão eclesial sem chegar, mais tarde ou mais cedo, à comunhão sacramental? Postular que é possível uma comunhão eclesial plena sem uma comunhão sacramen­tal não parece um caminho que nos possa deixar tranquilos. Note-se também que não se faz mais menção à “comunhão espiritual” como estrada alternativa ao sacramento, como tinha acontecido até ao Sínodo extraordinário25.

O caminho do discernimento e do “foro interno” expõe-se à possibilidade de decisões arbitrárias, é certo, mas “o laissez-faire nunca foi um critério para recusar um bom acompanha­mento pastoral. Será sempre dever do pastor encontrar um caminho que corresponda à verdade e à vida das pessoas que acompanha, sem poder talvez explicar a todos porque é que eles tomam antes uma decisão e não outra. A igreja é sacramento de salvação. Existem muitos percursos e muitas dimensões para explorar a favor da salus animarum26. Sobre o acesso aos sacramentos, o Sínodo ordinário pôs então as bases, abrindo uma porta que no Sínodo anterior tinha permanecido fechada. Mais, há um ano não tinha sido possível sequer certificar por maioria qualificada o que tinha sido debatido sobre o tema, o que tinha efectivamente acontecido. Portanto, pode falar-se de um passo novo27.

 

O Sínodo em direcção ao Jubileu

O Sínodo “deu provas da vivacidade da Igreja Católica, que não tem medo de sacudir as consciências anestesiadas, ou de sujar as mãos discutindo animada e francamente sobre a família”, como disse o Papa no seu discurso final. Mas com o seu fim não se conclui o processo aberto. O tema mesmo do Sínodo e o seu compromisso pastoral, aprovado por maioria qualificada, flui para o interior do Jubileu da misericórdia que começa no dia 8 de Dezembro. Mas os trabalhos sinodais já tinham recebido da imi­nência do Jubileu uma “luz particular e uma orientação precisa”28.

É também de considerar com atenção o facto que com o processo sinodal tenha começado um profundo processo de reflexão, esse também assinalado com franqueza, sobre os temas da família. É interessante notar quantas publicações, seminários, encontros, debates se desenvolveram em vários contextos eclesiais: desde os paroquiais e comunitários aos académicos29. Tratou-se portanto de um momento de graça. A coisa mais importante deste Sínodo, de facto, foi a imagem de uma Igreja que se aproxima da realidade para olhá-la de frente, para ver as pessoas com as suas histórias concretas. A Igreja não pretende “julgar” antes de “ver” e tocar a vida dos seus filhos com uma mão capaz de acompanhar e curar. A XIV Assembleia ordinária do Sínodo dos Bispos foi portanto uma etapa funda­mental dentro do caminho que a Igreja está a fazer, guiada pelo Papa Francisco, na direcção indicada pelo Concílio Vaticano II.

 

in Brotéria,  Volume 181, n.º 5 - Dezembro 2015, 435-454.


 

* Director da revista La Civiltà Cattolica.


 

(Traduzido do italiano por Rita Lucena, a quem agradecemos)


 

1 Para uma análise das etapas fundamentais deste processo sinodal, cfr. o volume que recolhe os Actos do Sínodo: A. Spa­daro (ed.), La famiglia è il futuro. Todos os documentos do Sínodo extraordinário 2014, Milano, Àncora, 2014.
2 Papa Francisco, Discurso de introdução, Aula do Sínodo, 5 outubro 2015.
3 As perguntas foram envia­das aos Sínodos das Igrejas orientais, a todas as Con­ferências episcopais sui juris, aos Dicastérios da Cúria Romana, e aos outros bene-ficiários. As inserções foram adicionadas antes ou depois dos 62 números da Relatio, de acordo com o tema, que se torna assim comentado e ampliado pelas respostas chegadas.
4 Cfr. Evangelii gaudium (EG), nn. 32; 244; 246.
5 Papa Francisco, Discurso de Comemoração do 50º aniversário da instituição do Sínodo dos Bispos, 17 outubro 2015.
6 Ibidem. A citação final é de S. João Crisóstomo, Explica­tio in Ps. 149: PG 55, 493.
7 A. Spadaro, «Entrevista ao Papa Francisco», in Civiltà Cattolica 2013 III 466. Depois no volume Papa Francisco, A minha porta está sempre aberta. Uma conversa com Antonio Spadaro, Milano, Rizzoli, 2013, 65.
8 Papa Francisco, Discurso de Comemoração do 50º aniversário …, cit.
9 Um caso emblemático está representado pelo parágrafo sobre a homos­sexualidade presente na Relação final do Sínodo (n. 76): para alguns – por exemplo padres provenientes de contextos nos quais a poligamia é tema a tratar com serenidade e atenção – o tratamento pareceu demasiado con­ciliante. Para outros, pelo contrário, pareceu insufi­ciente. Na terceira Relação do círculo menor de língua alemã, por exemplo, afir­ma-se que “no esforço mal entendido de respeitar a doutrina da Igreja, junta­ram-se repetidamente atitu­des duras e intransigentes na pastoral, que causaram sofrimento às pessoas”. Entre estas faz-se menção explícita às “pessoas com orientação homossexual”. Pelo que – concluem os padres – “como bispos da nossa Igreja lhes pedimos perdão”.
10 Id., Saudação aos Padres Sinodais durante a I Congregação geral da III Assembleia geral extraor­dinária do Sínodo dos Bispos, 6 outubro 2014.
11 Ch. Schönborn, Rela­ção comemorativa do 50° aniversário do Sínodo dos Bispos, 17 outubro 2015.
12 Papa Francisco, Discurso de Comemoração do 50º aniversário …, cit.
13 Ibidem.
14 Aos círculos foram forne­cidas sínteses das interven­ções na Aula. Os círculos, por sua vez, produziram “modos” (emendas) colec­tivos, aprovados por maio­ria absoluta, que ficaram registados na Secretaria geral e ainda uma relação final, que foi lida na Aula e depois registada para publi­cação. No total foram regis­tadas 328 intervenções dos Padres (das quais 70 foram intervenções livres, para as quais se criou um espaço ad hoc de uma hora no fim do dia). A estas interven­ções devem ainda juntar-se mais 51, a propósito da Relação final.
15 Pelo contrário, os padres sinodais ficaram livres (isto é, foram encorajados nesse sentido) de dar entrevistas e de comunicar conteú­dos das suas intervenções, mesmo através do Twitter ou blogs pessoais ou dioce­sanos, fotos ou mensagens vídeo.
16 Papa Francisco, Homi­lia na Missa de abertura do Sínodo extraordinário sobre a Família, 5 outubro 2014.
17 Ch. Schönborn, Relação comemorativa …, cit.
18 Papa Francisco, Discurso de Conclusão da III Assem­bleia geral extraordinária do Sínodo dos Bispos, 18 outubro 2014.
19 Ch. Schönborn, Relação comemorativa …, cit.
20 Papa Francisco, Discurso de Comemoração do 50º aniversário…, cit.
21 A Comissão para a ela­boração da Relação final, nomeada pelo Santo Padre, estava assim formada: Car­deal Péter Erdő, arcebispo de Esztergom-Budapest (Hungria), Relator geral; o Cardeal Lorenzo Baldis­seri, Secretário geral; Mons. Bruno Forte, arcebispo de Chieti-Vasto; o Cardeal Oswald Gracias, arcebispo de Bombaim (Índia); o Cardeal Donald William Wuerl, arcebispo de Washington (USA); o Cardeal John Atcherley Dew, arcebispo de Wellington (Nova Zelân­dia); Mons. Victor Mannuel Fernández, reitor da Ponti­fícia Universidade Católica Argentina; Mons. Mathieu Madega Lebouakehan, bispo de Mouila (Gabão); Mons. Marcello Semeraro, bispo de Albano (Itália); P. Adolfo Nicolás Pachón S.J., Prepósito Geral da Compa­nhia de Jesus.
22 O Papa Francisco deci­diu fornecer uma imagem e um modelo da família como sujeito de evangeliza­ção, canonizando durante o Sínodo, no Domingo 18 de outubro, os pais de Santa Teresa de Lisieux, Luís Martin e Maria Azelia Guérin que - como disse durante a homilia - “vive­ram o serviço cristão na família, construindo cada dia um ambiente cheio de fé e amor”.
23 Papa Francisco, Dis­curso de conclusão da XIV Assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos, 24 outubro 2015.
24 Resposta do cardeal Schönborn in A. Spadaro, «Matrimonio e conversione pastorale. Intervista al cardi­nale Christoph Schönborn», in Civiltà Cattolica 2015 III 504.
25 Cfr. G. Pani, «La comu­nione spirituale», in Civiltà Cattolica 2015 II 224-237.

26 A. Spadaro, «Matrimonio e conversione pastorale...», cit., 504 s.
27 O n. 52 da Relatio Synodi, que expõe as diferentes posições, não chegou aos2/3 dos placet.
28 Na sua viagem apostólica ao Equador o Papa falou sobre a ligação entre o Sínodo e o Ano Santo. Cfr. Papa Francisco, Homilia no Parque de los Samanes, Guayaquil, Ecuador, 6 julho 2015. 
29 A Civiltà Cattolica acom­panhou o tempo intersino­dal com uma série de arti­gos depois recolhidos nos volumes: A. Spadaro (ed.), La famiglia, ospedale da campo, Brescia, Queri­niana, 2015; G. Cottier, Ch. Schönborn, J.-M. Garrigues, Verità e misericordia. Con­versazioni con P. Antonio Spadaro, Milano, Àncora, 2015.
 
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