Revista Brotéria

  
JANEIRO 2016 - O “anti-acaso”, itinerário para Deus PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Roque Cabral, S.J. *   

Artigo 2016-01 - O anti-acaso itinerário para Deus RC

 

O ambiente académico da França nos começos do século vinte era mar­cadamente agnóstico e hostil à religião. Baste lembrar o que aconteceu a Alexis Carrel (1873-1944), futuro Nobel da Medicina (1912).

Em 1902, sendo Carrel professor da Faculdade de Medicina de Lyon, pediu-lhe um colega que acompanhasse a Lourdes uma doente sua, Marie Bailly, gravemente enferma, que se empenhava em ir ao local das aparições de Massabièle. Carrel acedeu ao pedido do colega e, em Lourdes, assistiu à cura da doente. Do facto, que desencadeou nele o processo que, anos mais tarde, o levaria a regressar à fé católica, perdida durante os estudos univer­sitários, deixou Carrel o relato no livro “Le Voyage de Lourdes”, publicado anos mais tarde (1949)1.

Regressado de Lourdes, Carrel referiu aos colegas da Faculdade de Lyon o milagre a que assistira. O ambiente que imediatamente se criou à sua volta foi suficientemente eloquente para perceber que se fechara para ele a carreira médica em França. Depois de breve estada no Canadá (1903), ingressou no recém-fundado (1906) Rockefeller Institute for Medical Research, de Nova Iorque, onde se manteve até à reforma.

No mesmo ambiente da faculdade de Medicina de Lyon formou-se, anos depois, Pierre Lecomte du Noüy (Paris, 1883 - N. Iorque, 1947). Inicialmente formado em Direito e Filosofia, tendo estudado algum tempo com Sir William Ramsay e o casal Curie, doutorou-se finalmente em Ciências em 1917.
Como Carrel, também ele perdeu a fé durante os estudos universitários e, como Alexis Carrel, reentrou na Igreja Católica na sequência das suas investigações científicas, ainda que por um itinerário diferente, como dife­rente foi o campo científico por ele investigado.

Mobilizado durante a Guerra de 14-18, Lecomte du Noüy2 trabalhou com A. Carrel num hospital de campanha. Encarregado por Carrel de estudar o tempo que os ferimentos levavam a cicatrizar, a sua investigação levou a notáveis progressos numa área da biologia ainda pouco estudada, na qual se tornou pioneiro. Tendo verificado que o tempo de cicatrização das feridas variava em função da superfície das mesmas e da idade dos feridos, chegou a uma fórmula matemática simples, na qual um único coe­ficiente, o índice de cicatrização, exprimia a relação entre a superfície da ferida e a idade do ferido. Terá sido essa, sem dúvida, a primeira formula­ção matemática de um fenómeno biológico, com óbvias vantagens para o tratamento dos ferimentos. Constituiu o essencial da sua tese de doutora­mento em medicina. Ulteriormente, LN verificou poder prescindir da área do ferimento e ter apenas em conta a constante fisiológica de reparação, dependente apenas da idade do ferido.

Decisiva na investigação levada a cabo por LN foi a identificação e caracterização do tempo fisiológico, próprio dos seres vivos3, diferente do tempo psicológico e que varia com a idade. Algo que desde há muito era vivencialmente conhecido: o tempo entre dois Natais é muito mais longo para as crianças do que para os adultos; o tempo passa mais depressa na velhice do que na infância; a idade real nem sempre é a mesma que a idade legal; etc.

Dado que o índice energético de crescimento das células diminui rapi­damente nos primeiros tempos da vida, a actividade fisiológica vai dimi­nuindo entre a infância e a idade madura: um homem saudável cicatriza em dez dias uma ferida de dez centímetros quadrados, mas levará treze dias aos trinta anos, vinte e cinco dias aos cinquenta e trinta e dois aos sessenta. Adultos e crianças vivem em mundos temporalmente diferentes4 - realidade que os educadores devem ter sempre presente. Esta é a razão por que, em idades diferentes, precisamos de tempos diferentes para realizar as mesmas tarefas.

De 1919 a 1927 LN foi investigador no Rockfeller Institut, a partir de 1936 chefe de serviço do Institut Pasteur de Paris, do qual se demitiu, sendo depois nomeado Director da École des Hautes Études da Sorbone.

Ao longo da sua actividade científica, descobriu doze fenómenos até então desconhecidos, inventou numerosas técnicas biológicas e criou os aparelhos aptos para aplicação das mesmas.

No decurso das suas investigações sobre a evolução dos seres vivos, e partindo da demonstração matemática da impossibilidade de atribuir a simples efeito do acaso o aparecimento da vida, a evolução da mesma e as manifestações da actividade cerebral, LN concluiu a necessidade de admi­tir uma finalidade, um “anti-acaso”. Tal foi, no essencial, a doutrina que denominou tele-finalismo. Para LN, a evolução só é pensável como sendo querida (por Deus) e querida em vista de um fim: o homem bom. Esta foi especialmente a mensagem dos seus dois últimos livros, Avenir de L’Esprit e Human Destiny.

Apesar dos elementos válidos que contém, a sua tese não é plena­mente satisfatória, sobretudo pela insuficiente distinção entre ciência e filosofia e pelo tratamento demasiado sumário de alguns assuntos, como acontece especialmente na identificação sumária que faz do “anti-acaso” com Deus: “pour un esprit scientifique, il n’y a aucune différence de sens entre les mots “Anti-hasard” et “Dieu5.

Seja como for, este foi, de facto, o itinerário pessoal que LN percorreu, desde o materialismo científico ateu ao espiritualismo cristão, à fé em Deus e a reentrar na comunhão da Igreja Católica, alguns meses antes da sua morte, acontecida a 22 de Setembro de 1947.

Deu-se com ele algo semelhante ao que viveu o conhecido ateu inglês Anthony Flew: como observei no artigo que lhe consagrei em 2010, “quem buscasse nesta obra uma sólida argumentação acerca da existência de Deus, não ficaria plenamente satisfeito. Com efeito, as razões que levaram A. Flew a abandonar o ateísmo e a aderir a um certo teísmo6, não estão isentas de deficiências e fragilidades”7.

Tanto A. Flew como Lecomte du Noüy voltaram a Deus apoiados em argumentos não inteiramente concludentes. Caso para concluir: felix culpa!

A par dos numerosos trabalhos estritamente científicos que publicou (cerca de duzentos), foi-se acentuando o interesse de LN pelos grandes problemas da existência, interesse patente sobretudo em vários livros, que tiveram vasto acolhimento e nos quais é bem patente, no dizer de Albert Delaunay, “la marche ascendante d’une pensée”: L’Avenir de l’Esprit, Paris 1941; La Dignité Humaine, New York 1944; Human Destinity, Londres 1947; L’Homme et sa Destinée, Paris 19488. Após a sua morte, foi publicada, em 1964, uma selecção de importantes artigos seus, com o título Entre Savoir et Croire.

in Brotéria, Volume 182, nº 1 - Janeiro 2016, pp. 51-54 .


* Professor Jubilado da UCP de Braga.


 

1 Le Voyage de Lourdes, suivi de Fragments de Journal et de Méditations, Paris, 1949. Neste relato auto­biográfico, escrito na primeira pessoa, Carrel usou o pseudónimo Lerrac (Carrel ao contrário).
2 A partir de agora indicado por LN.
3 P. L. du Noüy, Le Temps et la Vie, Paris, 1936; Id., Biological Time, Londres, 1937.
4 Este tema é tratado sobretudo em L’homme et sa destinée e em dois trabalhos publicados na colec­tânea póstuma Entre savoir et croire: “Le vieillissement” (1933) e ”Le temps physiologique humain et le temps psychologique” (1945).
5 L’Homme et sa destinée, p. 164.
6 “A minha descoberta do divino foi uma peregrinação da razão e não da fé”.
7 R. Cabral, “Da negação para a descoberta”, Brotéria 171 (2010).
8 Esta obra retoma, numa linguagem mais acessível ao grande público, o essencial de L’homme devant la Science (Livre I), L’Avenir de la Science (Livre II) e La Dignité Humaine (Livre III).

 
You are here: Página Inicial Revista Brotéria Artigos JANEIRO 2016 - O “anti-acaso”, itinerário para Deus