MARÇO 2016 - Da globalização à glocalização Versão para impressão
José Eduardo Franco *   

Artigo 2016-03 - Da globalização à glocalização JEF - Imagem

Educar para uma globalização de rosto humano - Proposta de sete princípios para a utopia do mundo unido

Nas palavras do Padre António Vieira escritas na sua História do Futuro, Portugal, através das suas viagens marítimas de descobrimento dos novos caminhos dos mares, deu a “conhecer o mundo ao próprio mundo”. A partir da história universalista de Portugal como país pioneiro da globalização e com 600 anos de experiência na relação com o mundo que conheceu na sua redondeza e ajudou a que os outros continentes se conhecessem entre si, refletiremos sobre as fases históricas da globalização e sobre o estado desregulado e perigoso que lhe dá forma no momento presente. Proporemos 7 princípios ou vectores pedagógicos orientadores de um projeto de educação para lidar com o mundo globalizado em que vivemos, a fim de que seja possível construir uma globalização de rosto humano.

 

 

“A utopia é boa enquanto não se torna realidade. Não é um objectivo, é um horizonte em movimento.”
Umberto Eco

“(...) as utopias são fruto da imaginação, da projeção para o futuro de uma constelação de desejos e aspirações. A utopia vai buscar a sua força a dois elementos: por um lado, a inconformidade, a insatisfação ou o mal-estar que a realidade atual gera; por outro, a inquebrantável convicção de que é possível outro mundo. Daí a sua força mobilizadora.”
Jorge Mario Bergoglio (Papa Francisco)


“Torna-se portanto necessário que a ciência seja acompanhada da sabedoria. As duas poderão constituir o magnífico par de asas com que o homem conseguirá erguer-se um pouco acima dos conflitos de toda a ordem que têm ensombrado a sua condição ao longo dos milénios e que hoje, mercê do poder destrutivo conquistado sobre os elementos, correm o risco de tornar-se fatais para a própria subsistência da vida sobre a terra.”
Padre Manuel Antunes

Vivemos num tempo em que se assiste a um sensível “enlouqueci­mento” do processo acelerado de globalização em curso. O enfraque­cimento do poder organizativo do mundo, que se afirmou nos últimos quinhentos anos e através do qual foi possível passar dos velhos absolutismos à experiência de democracia – nações, países e estados soberanos –, é cada vez mais um dos dados relevantes da nossa atual globalização à procura de um sentido, de uma ordem que trave o risco da desumanização. A lógica da organização do mundo em países a caminhar para a democracia estendida a quase toda a terra está a ser torpedeada por entidades “invisíveis”, com força de mito, precisamente em nome da vantagem de se pensar e agir globalmente. Falamos das organizações transnacionais sem rosto, sem democracia, sem sufrágio dos povos. A começar pelos “fantasmáticos” mercados que fizeram dos bancos reféns – os quais, como se tornou habitual dizer, “não devem ser irritados nem afrontados pois vingam-se nos Estados com as suas mano­bras financeiras -, passando pelas multinacionais até à multiplicação de grupos terroristas que espalham o terror por todo o lado, todas vergam hoje em dia os chamados “estados soberanos” às suas exigências, aca­bando por submeter os povos a medos, a austeridades, a contribuições para pagar “dívidas” de que não foram autores.

O tempo de uma certa guerra mundial antidemocrática, contra a autodeterminação dos povos do mundo que hoje vivemos, tem para­lelo, mutatis mutandis, com outro tempo, o tempo do Padre António Vieira, o século XVII, em que se teria experimentado uma “proto-pri­meira guerra mundial”. Era a época da afirmação das grandes potências coloniais europeias contra os dois primeiros impérios ultramarinos da modernidade: Portugal e Espanha. Holanda, Inglaterra, França disputa­vam então a primazia imperial no mundo, contra as potências pioneiras da Península Ibéria, estendendo as guerras de religião e de apropriação de territórios e de gentes a todo o globo.

Por seu lado, do ponto de vista individual e social vive-se um enlouquecimento resultante das derrocadas de “sentido” com a emer­gência daquilo que Manuel Antunes classificou como o “homem espuma” e que mais tarde outros autores com mais fama mundial ape­lidaram de “homem light1 ou ligeiro, sem consistência, sem fidelidades e sem convicções fortes.

Tudo isto misturado com o recurso fácil a poderosos meios de comunicação e de informação que não facilitam a orientação por cami­nhos claros. Por isso, como analisa Manuel Antunes, “Muitas realidades atingem hoje a categoria «exponencial». Diante delas, o homem contem­porâneo sente-se como que tomado de vertigem e confusão, tão avas­saladoramente galopante lhe parece o seu ritmo aumentativo.”2

A proto-globalização iniciada há quase 600 anos pela empresa marítima de desbravamento do mar ignoto, liderada pelo Infante Dom Henrique, com a descoberta oficial do arquipélago da Madeira foi mar­cada pela abertura de novas rotas marítimas planetárias que colocou os continentes, os povos, as religiões, as civilizações do mundo a intera­girem entre si.

Abriu-se, então, um tempo novo, o dealbar da Modernidade, em que Portugal ao lado de Espanha, ou seja, as coroas católicas ibéricas, foram pioneiras de um processo de mundialização das relações entre os povos de todo o planeta. O jornalista Martin Page, num livro recente, concebeu este movimento mundializante como tendo sido o gerador da “Primeira Aldeia Global”3. Esse tempo novo inaugurado por Portugal fez sobressair duas dimensões divergentes da nossa cultura portuguesa que até hoje conviveram em tensão e que constituem a nossa herança cultural identitária: o Portugal universalista, aberto ao mundo e enri­quecendo-se nessa posição dialógica; e o Portugal fechado, “velho do Restelo”, desconfiado do que vem de fora, defendendo a cultura do “orgulhosamente sós”4.

Este processo expansionista português tinha sido iniciado perante a Europa com a conquista da praça islâmica de Ceuta pelos Portugueses em 1415, marcando o início da expansão imperial portuguesa no Norte de África, depois continuada pelos caminhos marítimos que Portugal rasgou nos oceanos “nunca de antes navegados”. Era esse um tempo diferente, um tempo de confronto, de conflito, do domínio territorial e cultural.
Todavia, nesse crepúsculo da Idade Média iniciou-se, em mais um ciclo expansionista que tem marcado em diferentes épocas históricas a dinâmica das civilizações, um processo inédito de conhecimento do Outro, de desbravamento de um mundo desconhecido que se foi alargando à escala planetária. Estava a inaugurar-se o movimento que fez a proto-globalização e permitiu que povos, culturas e religiões de todos os continentes se tornassem conhecidos e passassem a relacio­nar-se, fazendo, pela via do conhecimento, desabar mitos, estereótipos e medos antigos. Deu-se então a conhecer “mundo ao mesmo mundo”, nas palavras de Vieira escritas na sua História do Futuro no século seguinte5.

Esse processo de observação da diversidade, que fazia a riqueza da humanidade, permitiu mais tarde, passado o tempo dos confrontos, uma progressiva aprendizagem de valorização da diferença pela assun­ção de uma cultura de respeito pelos modos de estar, pensar e acreditar diversos.

Passados seis séculos, hoje estamos no tempo em que é decisivo criar uma história de cooperação, intercâmbio e concórdia para a cons­trução de uma vida humana sobre a terra marcada pela paz, pela justiça e pela fraternidade universal, no respeito pleno pela liberdade de todos os povos e religiões. Revisitar, nesta segunda década do século XXI, os 600 anos deste encontro de culturas e de povos é, acima de tudo, compreendendo como chegámos até aqui, manifestar o desejo de criar uma nova história: uma história não de confronto mas de encontro. Só por esta via a humanidade sobreviverá humana.

Com efeito, Portugal é o país que tem uma história mais longa de experiência global como protagonista e agente do processo de globali­zação, no quadro do seu duplo movimento expansionista de horizonte planetário iniciado há 6 séculos: o primeiro movimento é de continua­ção da cruzada medieval, estendendo-se pelo Norte de África e con­quistando praças estratégicas sob o domínio mouro; o segundo, esse de perfil moderno, de expansão marítima de desbravamento de novas rotas oceânicas intercontinentais nos imensos mares desconhecidos.

Portugal, criando o primeiro império global e sendo o primeiro líder deste processo de globalização, teve o mérito de criar os primeiros caminhos da universalidade, dando a conhecer mundos desconhecidos à Europa cristã. Pelo ideário axial motivador da descoberta assente nas crónicas de descobrimento, o ideário religioso de levar a Palavra de Cristo aos confins da terra, associado à demanda de riquezas e de novas rotas comerciais, Portugal cria, através dos seus agentes civis e reli­giosos (mercadores, navegantes, missionários, capitães, governadores, vice-reis, bispos) a primeira base de dados de informação global que marca um período forte de configuração da identidade proto-nacional, construída nos discursos historiográficos e literários na relação entre o local e o global.6 A nossa língua, desenvolvida e consolidada na relação com os outros povos e culturas, tornando-se língua franca para relações comerciais em alguns pontos nevrálgicos da globalização em curso, espelha hoje essa relação global, tendo absorvido um número significa­tivo de vocábulos provindo de outras línguas, assim como outras línguas assimilaram vocábulos da nossa.

Ergue-se então o Portugal universalista, tornando-se hoje, pela experiência de 6 séculos de relação com o mundo todo, o país com mais experiência no processo de globalização. Esse foi o momento em que nos sintonizámos com a “história do mundo” e fizemos “história do mundo”, no sentido em que escreve Eduardo Lourenço ao falar do papel decisivo do Infante Dom Henrique para esta viragem: “Ele é o ini­ciador de uma fase nova na história portuguesa. Há um antes do Infante e um pós-Infante D. Henrique. Somos o que somos porque houve a História dos Descobrimentos. Caso contrário, provavelmente teríamos desaparecido, como desapareceram outros países da Europa com mais possibilidades do que nós e que até hoje não conseguiram a sua auto­nomia, como é o caso da Catalunha (...). Será uma resposta, uma compensação para a nossa pequenez real. É a maneira de nos afirmarmos. Um sujeito que é campeão de uma coisa fica campeão para o resto da vida. Nem todos os povos foram campeões olímpicos nesta disputa. E quando se foi, é-se sempre. É isso que os portugueses registam no seu relacionamento com os outros. É a imagem que projetam para os outros. (...) Nós, portugueses, tivemos um momento na História Mundial. Esse momento não se apaga. Não só não se apaga, mas também é cada vez maior. Esse é que é o paradoxo. É muito exaltado nos momentos de contraste entre a realidade do que se é e aquilo que os outros já são, porque os outros também não pararam. Descobriram outras Índias, de outro género. Na Ciência, por exemplo. Nós acompanhámos como pudemos, mas um feito daqueles é coisa que se faz uma vez.”7

Os diagnósticos deste mundo em ebulição e conflito foram rea­lizados por intelectuais lúcidos, fecundando o pensamento utópico moderno que tinha na base as leituras pessimistas desagradadas com uma mundialização das relações entre os povos que não favorecia a harmonia e a dignidade das diferentes raças e estádios civilizacionais.8

Também no nosso país surgiram pensadores que refletiram sobre as grandezas e misérias, vantagens e perigos que se sentiam advir dessa era de primeira globalização das relações entre os povos com a liderança das potências europeias, que se afirmaram e lideraram esse processo até há poucas décadas. Os impérios globais modernos (Portu­gal, Espanha, Holanda, França, Inglaterra) ganharam poder e dimensão espalhando-se pelo mundo em concorrência conflitual entre si e disse­minando velhas rivalidades europeias à escala global.

Apraz-nos recordar dois importantes autores portugueses que, um no século XVI e outro no século XVII, contribuíram com uma reflexão analítica sobre essa primeira globalização em curso e com uma proposta de humanização, assente em critérios cristãos, desse processo que estava a assumir rumos desumanizantes e pouco tendentes à construção de um mundo pacífico e harmónico. Fernando Oliveira, na sua obra Arte da Guerra do Mar editada em 1555, louvando o pioneirismo português na criação de conhecimento inédito e global, ao qual atribui uma verda­deira epopeia gnosiológica que superou e corrigiu os dados científicos gregos e romanos, denunciou as novas redes de opressão global que as potências cristãs europeias estavam a criar, nomeadamente o comércio esclavagista em que se fazia de seres humanos, livres por natureza, objetos de comércio e de exploração laboral. É o primeiro intelectual português a denunciar de forma veemente e absoluta a escravatura e a qualificá-la como inaceitável enquanto prática de reinos cristãos.9

Outro grande autor foi António Vieira que, no século seguinte, percebeu os limites e as contradições desumanizantes do processo de globalização promovido pela Europa cristã. O Padre António Vieira foi em Portugal um dos mais argutos críticos preocupados com o estado do mundo e a sua deriva desumanizante. Um desses diagnósticos literaria­mente geniais pode ser encontrado nos “Sermões” que dedicou ao “pro­to-missionário” jesuíta do oriente e do extremo oriente. De facto, ficou para a história a vida extraordinariamente excessiva de São Francisco Xavier, guiada pela sua “santa loucura” de Deus, que inspirou reflexões não menos extraordinárias como as de Vieira. Tendo por referência a experiência de Xavier, comparou o mundo a um hospital de loucos, num sermão dedicado às doudices deste missionário: os loucos que estão acima da razão e os loucos que estão abaixo da razão.

“Debaixo desta breve prefação, o assunto, que hoje hei de pregar, são as doudices de São Francisco Xavier. E para que os escrúpulos, que espero se hão de converter panegíricos, entretanto tenham mão em si, suponho brevemente que assim como há doudices que arguem falta de juízo, assim há doudices que o qualificam, e acreditam; assim como há doudices vãs, assim há doudices santas. Texto expresso de David: Qui non respexit in vanitates, et insanias falsas [Sl 39, 5]. Fala de um homem sábio, e sisudo, que toda a sua esperança pôs em Deus, e diz que se não deixou enganar das vaidades, e doudices falsas. Logo há doudices falsas, e doudices verdadeiras? Assim é. E quais as verdadeiras, e quais as falsas? As falsas são as dos doudos que seguem a vaidade: Vanitates, et insanias falsas; as verdadeiras são as dos doudos que seguem o con­trário das mesmas vaidades, que é a verdade. Mas se seguem a verdade, porque são doudos? Porque toda a doudice se opõe ao uso da razão diferentemente. Os excessos dos maus obram contra a razão, por isso são viciosos, e vãos: os excessos dos Santos obram sobre a razão, e por isso são sólidos, e verdadeiros. Uns, e outros doudos nesta grande casa de loucos, que é o mundo, têm o seu hospital separado: o dos Santos está nos arrabaldes do Céu, para onde sobem; o dos maus nos arrabaldes do inferno, aonde se precipitam; uns, e outros andam fora de si como doudos: os maus fora de si, porque se buscam; os Santos fora de si, porque se deixam.”10

Neste sermão célebre dedicado às “doudices” de Francisco Xavier, o primeiro missionário global de que Vieira se considerava uma espé­cie de heterónimo e seguidor, agora nas Índias Ocidentais, o grande pregador jesuíta diagnosticou pela primeira vez aquilo a que podemos chamar a doença da globalização, caracterizada pelo enlouquecimento, pela desorientação ética decorrente da cobiça e da ambição humana sem limites. Sentiu o drama de um mundo em guerra, em relações de opressão e em desorientação moral, simbolizado nos loucos que estão abaixo da razão e que desfiguram o rosto humano da vida na terra. A sua utopia do Quinto Império, herdeira da velha aspiração medieval, é precursora do sonho de uma era de fraternidade universal que seria realizada pelos loucos que estão acima da razão: os missionários, os heróis que defendem, até à prova da própria vida, a dignidade humana espelhada na diversidade dos povos e das culturas.

O mundo atual precisa de atualizar e ativar a força mobilizadora através de uma nova utopia em favor de um mundo unido. Uma utopia não no sentido de “não lugar”, mas na sua aceção mais profunda e mobilizadora como “lugar ainda não existente”, que é possível alcançar ou edificar. Como bem releva Jorge Mario Bergoglio, o sentido da utopia como o horizonte da esperança ativa “longe de ser um mero consolo fantasiado, uma alienação imaginária, a utopia é uma força que a espe­rança adquire numa situação histórica concreta”11.

Todavia, o futuro Papa Francisco, quando escreve os textos que recebem o título Educar para uma esperança ativa, alerta para o perigo do pensamento único que certas propostas provindas do pensamento utópico podem transportar. Lembra o critério evangélico, que se torna profilático contra esta tentação, que no passado transformou grandes utopias em distopias destruidoras de partes do género humano (nazis­mos, sovietismos, etc.): “Há um critério, verdadeiramente evangélico, que é infalível para desmascarar pensamentos utópicos que fecham a possibilidade da esperança, e até falsas utopias que a desnaturalizam. É o critério de universalidade. ‘O homem todo e todos os homens’ era o princípio de discernimento que Paulo VI propunha relativamente ao verdadeiro desenvolvimento”12.

Já no início da década de 70 do século passado, em plena emer­gência da dinâmica transformadora do xadrez mundial que veio a ser cunhada pelo conceito de Era da globalização, o Padre Manuel Antunes defendia que “duas forças antagónicas, centrípeta e centrífuga, soli­citaram os povos na década que finda: o mundialismo e o etnocen­trismo”13. Estes dois movimentos pendulares acentuaram-se em tensão permanente desde a década auspiciosa de 60 até aos nossos dias. De facto, o incremento da segunda tendência ou processo de globalização contribuiu para acicatar a sua contrária, como forma de resistência à massificação cultural uniformizadora e diluidora das identidades locais, regionais e nacionais.

Nesta linha, e tendo em conta o nosso estatuto de país com mais experiência na relação com os povos do mundo, de país construtor da primeira globalização, podemos colher inspiração e fundamento para propor um conjunto de sete princípios que podem contribuir para educar as crianças e jovens de hoje em ordem à construção de uma glo­balização de rosto humano que deve passar pela ideia de glocalização, ou seja, de uma cultura de relação com o mundo todo, não perdendo a referência à nossa inscrição de origem.14 Este é o suporte fundante e fundamental para garantir essa relação global equilibrada. A glocaliza­ção é precisamente o que garante o ponto de equilíbrio da globalização de rosto humano a partir de uma formação do “homem todo e de todo o homem”, no dizer de Manuel Antunes.

Passamos então a explanar os sete vetores pedagógicos orienta­dores de uma educação para uma globalização de rosto humano, que brotam de sete princípios: Identidade, Amor à Humanidade, Informa­ção, Escolha, Hospitalidade, Solidariedade, Transcendência.

1) Reforçar o sentido de raiz, ou seja, de pertença a uma dada comunidade, a um território de nascimento natural e, mais ainda, de nascimento cultural e de formação identitária, que confere a cada ser humano uma mundividência, um sistema de crença ou de sentido. A língua, os valores, os imaginários que bebemos com o leite materno numa dada região, nação e país imprimem-nos uma carta de identidade “identitária” (permita-se a redundância), que acaba por ser a nossa refe­rência e imagem de marca para toda a vida. Desconsiderar este sentido de raiz é perder o suporte, o chão, sem o qual é mais difícil manter uma relação equilibrada com o mundo global em que vivemos.

2) Desenvolver o sentido da humanidade no seu conjunto, diversa, plural, multi-identitária, multirrácica, multirreligiosa e multilin­guística como antídoto contra a tentação de uniformização, de normali­zação, de pensamento único que facilita a assunção de poderes totalitá­rios, de fanatismos avassaladores, intolerantes e violentos.

3) Conhecer a sociedade da informação global e criar compe­tências de comunicação avançadas para viver e lidar quotidianamente com o universo em expansão da tecno-informação, que nos envolve e determina a vida individual, social, empresarial política e até religiosa (Internet, redes sociais, televisão, etc.).

4) Educar para a escolha, para tomar opções, para cimentar con­vicções que definam caminhos a seguir à luz de valores-coluna, sempre tendo por tronco o valor da indefetível dignidade humana e do valor supremo da vida, em ordem a afrontar toda a cultura de morte que tende a predominar no mundo de hoje.

5) Cultivar o valor da hospitalidade através do conhecimento da cultura do Outro e do acolhimento de pessoas provindas de civilizações diferentes da nossa, aceitando-as como irmãs, a fim de criar uma cultura de acolhimento de rosto humano em tempo de mobilidades várias que caracterizam a globalização acelerada que experimentamos: turismo, viagens de natureza profissional, emigração, procura de refúgio e asilo político ou fuga por razões de guerra e de fome nos países de origem.

6) Formar para a solidariedade glocalizada com o desiderato de ajudar os seres humanos carenciados mais distantes de nós, mas também os mais próximos, constituíndo-se o amor universal como a chave para praticar a não distinção de raças e de cores. Na experiência de solidariedade é que o melhor da humanidade sobressai e a espe­rança volta a nascer como aurora que brilha depois de um noite escura e tormentosa.

7) Sensibilizar para a transcendência, ou seja, para uma visão do ser humano mais do que um ser rasteiro e rastejante, mas que está vocacionado à divinização, ou seja, a superar a sua condição animal e olhar mais alto e mais fundo, à luz do sentido primigénio da missão do cuidado da terra que lhe foi confiada, como ser dotado de inteligência. Essa vocação à transcendência passa por assumir a sua tarefa de harmonizar os excessos que fazem perigar o equilíbrio eco-humano-lógico no nosso planeta.

Estes vetores advêm da reflexão patente no pensamento peda­gógico de Manuel Antunes, preocupado com o domínio do homo mechanicus gerado na revolução industrial e esvaziado ainda mais pela era tecnológica em que vivemos, defendendo a sua superação pelo novo tipo de homem, o homo misericors, o único que se pode salvar e salvar o planeta, com base na cultura da misericórdia: “É uma força que desperta ante o espetáculo desolado da miséria alheia. É um olhar que vivifica e não mata, salva e não condena, ergue e não deprime. É um impulso para agir sem cumplicidade e para reunir sem massificar. É uma vontade de sair de si, da prisão do próprio ‘eu’, para transformar o mundo e se transformar a si mesmo em permanente e incansável reciprocidade”.15

Este ideal de homem pode, em nosso entender, fundar um modelo de homem novo com capacidade para atualizar as velhas utopias de um mundo unido: o homo fraternus. O homem fraterno pode tornar-se o “princípio-esperança” que inspire uma mudança da deriva enlouquecida da globalização: a construção de uma cidadania universal em que todos os seres humanos se sintam membros da Casa Comum do Planeta Terra onde nos foi dado viver e nos foi dada para cuidar.16

Espera-se, com a assunção deste modelo, uma nova cultura de relação com o outro e com a natureza que pode efetivamente recriar no mundo de hoje um novo humanismo que permita construir uma globalização de rosto humano.

 

in Brotéria, Volume 182, nº 3 - Março 2016, pp. 271-282.


 

* CLEPUL - Universidade de Lisboa


 

1 Cf. Gilles Lipovetski, A Era do Vazio: Ensaio sobre o individualismo contemporâneo, Relógio de Água, Lisboa, 1988.
2 Manuel Antunes, Obra Completa, Tomo II, Paideia: Educação e Sociedade, Edição Crítica, Coordenação Científica José Eduardo Franco, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2005, 19.
3 Martin Page, A Primeira Aldeia Global: Como Portugal mudou o mundo, 14ª ed., Casa das Letras, Lisboa, 2015.
4 Cf. Portugal Tolerante: Textos Portugueses sobre Diálogo Intercultural, Selecção e co-coordenação de José Eduardo Franco e Paulo Mendes Pinto, Sinais de Fogo, Lisboa, 2014.
5 Padre António Vieira, História do Futuro. Obra Completa, Dir. José Eduardo Franco e Pedro Calafate, Tomo III, Vol. I, Círculo de Leitores, Lisboa, 2014, 74.
6 Jorge Nascimento Rodrigues e Tessaleno Devezas, Portugal, o Pioneiro da globalização, Centro Atlântico, Lisboa, 2007.
7 Eduardo Lourenço, «Infante D. Henrique», in 21 Personalidades dos séculos XX-XXI escolhem as vinte e uma personalidades do milénio, Modo de Ler, Porto, 2014, 62, 64 e 65.
8 Cf. Raphael Liogier, La guerre des civilisations n’aura pas lieu: Coexistence et violence au XVIe siècle, CNRS Éditions, Paris, 2016.
9 Cf. Fernando Oliveira, Arte da Guerra do Mar, Per Johão Alvarez, Coimbra, 1555.
10 Padre António Vieira, Sermões consagrados a São Francisco Xavier. Obra Completa, Tomo II, Vol. XII, Círculo de Leitores, Lisboa, 2014, 236-237.
11 Jorge Mario Bergoglio, Educar para uma esperança ativa, Paulinas, Lisboa, 2013, 10.
12 Bergoglio, Educar para uma esperança ativa, 23.
13 Manuel Antunes, Obra Completa, Vol. I do Tomo III, Política e Relações Internacionais, Introdução e coordenação de Guilherme d’Oliveira Martins, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2007, 127.
14 Sobre o conceito de “glocalização” ver Augusto Franco, Globalização, glocalização. Glocalização, Aed, Belo Horizonte, 2014.
15 Manuel Antunes, Obra Completa, Tomo II, Paideia, 86. E ver Papa Francisco, O Rosto da Misericórdia. Misericordiae vultus. Bula da Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, Paulinas, Lisboa, 2015.
16 Cf. Edgar Morin, Penser Global: L’humain et son univers, Éditions Robert Laffont/Éditions de la Maison des Sciences de l’homme, Paris, 2015.